Fama bissexta*

Antero Greco

22 de julho de 2012 | 12h46

Nas próximas três semanas, você ouvirá falar muito da Maurren, da Fabiana, do Cielo, do Scheidt, dos rapazes e das moças do basquete, dos meninos e das meninas do vôlei, dos garotos e das garotas do futebol, dos guerreiros e das guerreiras do judô. Assim mesmo, por nome ou sobrenome, dependendo do caso, por apelido (Doda, Nenê, Ganso…) ou pela referência à pouca idade. Mas na maior intimidade, como figuras carimbadas que frequentam o noticiário de tevês e jornais.

A familiaridade faz sentido, pois nos acostumamos a acompanhar – nem sempre tão de perto assim – a trajetória deles, em competições domésticas ou nos grandes desafios internacionais. As duas estrelas do atletismo, o velocista das águas, o expert no iatismo, os valorosos integrantes dos esportes coletivos compõem a casta de brasileiros dos quais se esperam medalhas. Alguns são barbadas e pagam pouco nas casas de apostas londrinas, mais ouriçadas do que nunca. Dificilmente voltarão para casa de mãos vazias.

Esses atletas fazem parte da nata da elite nacional (vale a redundância), têm assistência especializada, são tratados a pão de ló pelo Comitê Olímpico Brasileiro, pelas respectivas confederações e por patrocinadores. Garimparão alguns ouros prováveis, bem como pratas e bronzes seguros. A eles podem juntar-se destaques no hipismo, na ginástica, no tae kwon do. Quem sabe também no boxe? Surpresas são sempre bem-vindas, embora cada vez com menos espaço para que possam vingar; todos se conhecem e se vigiam, se espreitam nos esportes de alta competição.

Mas você terá oportunidade também de ser apresentado a nomes que lhe soarão novos, como Joice Silva, da luta, ou Fernando Saraiva e Jaqueline Ferreira, do levantamento de peso, ou ainda Yane Marques, do pentatlo moderno. Conhece Daniel Xavier? É o nosso arqueiro na terra da rainha Elizabeth. Sabe qual a especialidade de Ana Luiz Mello e Filipe Fuzaro? Se cravou tiro, atingiu o alvo.

Deixe ver se está em sintonia comigo: a qual esporte você associaria Lara Teixeira e Nayara Figueira? Ficou em dúvida? Ok, então digo que são as sereias do dueto no nado sincronizado. Aquelas moças que parecem cópia uma da outra, que dançam e fazem acrobacias absolutamente idênticas na água. Tem ideia da categoria a que se dedicam Clemilda Fernandes, Gregolry Panizo e Janildes Fernandes? Eles pedalam, pedalam… ciclismo!

Se eu lhe pedir para citar alguém da nossa armada no boxe, provavelmente fará cara de paisagem e vai sugerir mudança de assunto. Da mesma forma disfarçará, se surgir o desafio de enumerar os patrícios que concorrerão nos saltos ornamentais (bonitos, precisos e arriscados) ou no triatlo, que exige fôlego e resistência que não é pra qualquer um.

Não se envergonhe, você está na média dos brasileiros, que não conhecem a maioria dos 259 atletas que representarão o País na Olimpíada de Londres. Exceto a turma manjadíssima – os boleiros sobretudo -, os demais estão conformados com o anonimato, parcial ou total. O percurso deles, as conquistas e as angústias são seguidos de perto pelos iniciados nos esportes, pelos parentes, pelos dirigentes e pelos cronistas especializados. Tocam a vida fora de holofotes, de vez em quando são procurados para entrevistas, passam longe da badalação. Não se trata de nível social (muitos são abastados). É questão de popularidade, de nossa baixa cultura esportiva.

O Brasil é, e pelo visto não mudará com Rio-16, nação de poucos esportes e que se liga, eventualmente, nos que fazem sucesso e dão medalhas. Por isso, esses jovens devem aproveitar a visibilidade efêmera, a fama bissexta como o anos dos Jogos que lhes proporcionará a exposição na mídia nestes 20 dias. Para em seguida, travarem sua luta à sombra, como sempre. Uma pena.

*(Minha crônica no Estado de hoje, domingo, 22/7/2012.)

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