Fazer a América*

Antero Greco

08 de fevereiro de 2012 | 12h54

Desde ontem está no ar a edição 2012 da Taça Libertadores, torneio que existe há meio século e que há duas décadas virou fixação dos brasileiros. Obsessão tão forte que muita gente entra na Copa do Brasil e na Série A não pela honra de brigar pelo título, mas para ter uma vaga na competição continental. O que considero um equívoco e uma chatice. O caminho para ganhar fama universal começa com conquistas domésticas.

 O pontapé inicial da turma de cá ficou para o Fluminense, com o 1 a 0 no Arsenal – o argentino, que tem uma Sul-Americana, não o original londrino. O Vasco estreia hoje em casa; o Inter, amanhã, em Porto Alegre. Santos, Corinthians e Flamengo esquentam motores para a semana que vem. Sexteto de respeito, acostumado com o torneio e responsável por sete títulos. Retrospecto nada desprezível e que permite sonhar.

Sem patriotada, se não der zebra um deles pelo menos estará na final. São elencos de qualidade, com nada a dever aos adversários, que não têm padrão mais refinado do que os brazucas. A nossa América não ostenta esquadrões, morre de inveja (e de medo) de um Barcelona, mas sempre guarda surpresas.

E, se um daqui chegar à final, contra quem será? Talvez enfrente o Boca, maledetto devastador de representantes verde-amarelos que está de volta, depois de duas temporadas. Ou pode pegar a Universidad de Chile, que tem jogado futebol redondinho e faturou a Sul-Americana de 2011. Chivas, Cruz Azul, Peñarol, Velez não podem ser esquecidos, e correm por fora. Apostas e portas abertas.

A Libertadores é bacana, campeonato tinhoso, recheado de artimanhas. Reúne o que há de melhor e de pior no folclore da bola. Há duelos inesquecíveis, em função do empenho e da habilidade dos rivais. Não faltam jogos históricos, por causa de viradas que pareciam impossíveis. Assim como há tira-teimas fenomenais levados para os pênaltis. A Libertadores já crucificou craques e consagrou pernas de pau, numa confirmação de que é contraditória e atraente.

Não são poucos os registros de arranca-rabos que beiram a guerra entre nações. Por obra e graça da globalização, estão em declínio as picuinhas entre vizinhos. Mesmo assim, não passa ano sem no mínimo uma confusão das bravas, das que fazem os europeus nos olharem com superioridade colonialista e lamentar o espírito belicoso dos cucarachas.

Alguém se envergonha disso? Eu não. Está certo que a Copa dos Campeões, também conhecida pelo nome pomposo de Uefa Champions League, é coisa fina. Já cobri vários jogos ao vivo e, de fato, a organização é impecável. Se bem que, em termos técnicos, há disparidades, pois gigantes convivem com nanicos. Também por lá é fácil encontrar partidas mequetrefes. Faz parte. Não existe campeonato só com baile de gala; há os arrasta-pés.

A Libertadores é um grande barato – ou assim deveria ser encarada pelos brasileiros. Não se trata de questão de vida ou morte. A ansiedade já estragou planos ambiciosos – e o Corinthians talvez seja um dos exemplos mais bem acabados de como entrar em parafuso em consequência de derrapadas sul-americanas. Coloca-se tamanha pressão que leva a quedas memoráveis como a do ano passado.

Não deveria ser assim. O prestígio e a força de um clube não se medem só pela Libertadores. Claro que faz bem ao ego, ao currículo e ao bolso atingir o topo da América. Mas não é tudo. A combinação entre descontração e eficiência funciona mais do que ter a faca entre os dentes. O Santos usou essa receita na campanha do tri.

*(Minha crônica no Estado de hoje, dia 8/2/2012.)

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