Felipão precisará mais do que carisma

Antero Greco

28 de novembro de 2012 | 13h14

Abstraia o componente político da queda de Mano Menezes e se concentre apenas nos aspectos técnico e emocional. O ex-treinador da seleção caiu porque não passou confiança, aos dirigentes da CBF, de que poderia suportar a pressão popular, na Copa das Confederações e principalmente no Mundial. Os cartolas o consideravam inadequado para essa provação, independentemente da experiência profissional.

Raciocínio idêntico poderia ser aplicado para Tite, Abel Braga, Vanderlei Luxemburgo e Muricy Ramalho, a quadra de ‘professores’ de ponta que trabalham aqui e que naturalmente foram lembrados para ocupar o cargo. (Carlos Alberto Parreira não entra na lista, por estar afastado do dia-a-dia de treinos e jogos.) Todos são vencedores, têm prestígio e currículo de respeito.

Mas, assim como Mano, na visão da cartolagem lhes falta pitada adicional de carisma e amplo respaldo popular, qualidades que se encontram em Felipão. Por isso, recaiu sobre ele a preferência de José Maria Marin. O título Mundial de 2002 ainda pesa muito, da mesma forma que a imagem agregadora construída ao longo da carreira.

Como não tem tendência para grandes inovações, o mandachuva da CBF optou pelo conhecido, e o conhecido e seguro, e mais à mão, no caso era Felipão. Razão suficiente para transformar em sonho de noite de verão convite para Pep Guardiola assumir a seleção.

Felipão viveu fase tumultuada no Palmeiras, e isso não lhe fez bem, ao menos para o público alviverde. Ter contribuído para deixar o time à beira do rebaixamento (que, de fato, veio) não valoriza nenhum histórico, mesmo que seja histórico com amplo saldo positivo, como é o caso dele. A falha num clube importante mexe com o torcedor.

O desafio de Felipão agora será o de mostrar que a tragédia alviverde foi consequência de conjunto de erros, do qual ele fez parte, mas não o foi o único. A melhor maneira de afastar resquícios de dúvidas será com a montagem de uma seleção forte e eficiente, e em pouco tempo, brevíssimo tempo.

Carisma é bom, ajuda, dá moral ao treinador, mas não será suficiente: Felipão precisará de todo o conhecimento que acumulou para arrancar dos futuros convocados o que podem e o que não podem. O relógio joga contra, como jogava quando assumiu em 2001. Com a diferença de que, naquela época, havia a perspectiva de apelar para Rivaldo, Ronaldo e o jovem Ronaldinho Gaúcho. Do trio, resta só o último…

Montar um Brasil em condições de ganhar o hexa talvez seja das tarefas mais instigantes da carreira de Felipão. Vai construir o time em torno de Oscar, Neymar, Ganso, Kaká? E, quem sabe?, até de um hoje veterano Ronaldinho?  Vamos ver, e que seja com toque de bola, arte e inteligência. E, de preferência, sem sufoco.

Por ora, desejo boa sorte ao Felipão. E que possa formar uma nova ‘família’ vencedora.

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