Festival de bofetões*

Antero Greco

22 de abril de 2011 | 12h20

Pessoal, a sequência de bolachadas ocorrida na noite de quarta-feira em campos de futebol foi tão poderosa que transforma em brincadeira de criança os combates do UFC, essa versão moderna e mais dura das antigas lutas livres que a moçada curte e paga pra ver. As brigas em Florianópolis e em Buenos Aires, no fecho de jogos decisivos, quase me levaram a nocaute – só de vê-las pela televisão! Imagino o que se gastou de bife cru para evitar atletas com olhos roxos. Quatro grupos de marmanjos foram protagonistas de um festival de má criação e despautério, pouco condizente com o espírito esportivo e com o clima de recolhimento da Semana Santa.

Não deu pra ficar indiferente diante das confusões – sobretudo aquela que estourou na boca da madrugada, no Estádio Diego Armando Maradona, na casa dos vizinhos do Sul. A turma do Argentinos Juniors perdeu a compostura, depois da lavada na bola, e tratou de compensar a desclassificação na Libertadores a poder de bofetões e pontapés no rapaziada do Fluminense. Difícil controlar o desejo de entrar na telinha e desembarcar no meio do campo para ajudar nossos irmãos do Rio. Imagino o torcedor tricolor revoltado e apreensivo, no início, a acompanhar as cenas de cafajestice explícitas. Orgulhoso, depois, com a brava resistência da tropa.

O impulso inicial, quase instintivo, foi xingar os argentinos, sempre eles, vilões eternos em confusões por estas bandas. Reação compreensível, por causa da rivalidade de cá e de lá. Mas não é assim. O que houve foi feio, uma besteira do tamanho do continente e que não teve nada de heroico. Só que, guardadas as proporções, o mesmo ocorreu em nosso quintal e envolveu, na maior parte, jogadores nativos. Certo, foi um uruguaio (El Loco Abreu) que começou a confusão na Ressacada. A brasileirada foi atrás e o pau cantou. Vamos segurar, então, o impulso xenofóbico. Patético foi ali, tosco foi por aqui. Empate.

Noves fora a estultice e a reação de cavalgaduras, como diria Mario Leonidas Casanova (culto, divertido e saudoso editorialista do Estado), os barbados de Flu, Argentinos, Botafogo e Avaí tiveram seu momento de garotos briguentos. Deixaram de lado a pompa da profissão, deram um bico na sisudez e liberaram o moleque peralta que trazem dentro de si. Sinceramente, não mandaria ninguém para o cadafalso, por causa disso. Distribuiria uma penca de suspensões e interditava o estádio argentino, para deixarem de ser bobos.

Passada a indignação, os incidentes me remeteram a José Cândido de Carvalho, mestre na arte de narrar “contados, astuciados, sucedidos e acontecidos do povinho do Brasil”. O pai do obra-prima O Coronel e o Lobisomem teve o futebol como tema de várias das historietas espalhadas por jornais e depois reunidas em livros saborosos como Por que Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon.

No episódio “Nos braços de uma cacetada”, o fictício ‘Semanário do Norte’ descreve o que houve, após o jogo entre Jabuticabeiras x Riachão do Norte. “Foi tanta cacetada, de tremer a Praça do Mercado. E no fim das cacetadas, Nhonhô Barbosa, competente delegado de Jabuticabeiras, contou os deixados pelos retirantes: quatro pneus de caminhão, um motor, uma bateria, uma caixinha de pastilhas Valda, um vidro de brilhantina Quebra-Galho, dois bigodes e meio, duas costeletas em bom estado de uso, uma cabeleira encaracolada que foi cortada a serrote, um anel de horóscopo, fotografia de disco-voador, três bonés zebrados, uma carta de pedido de emprego…”

O que terá sido recolhido no gramado do estádio argentino, sem contar o sumiço de material do Flu no banco de reservas? Aguardo relatório.

Ironia à parte, que noite magnífica para o campeão brasileiro! Estava moribundo na Libertadores, precisava de combinação de resultados para seguir adiante e… conseguiu! Os 4 a 2 foram sofridos, suados, festejados, brigados. O Flu ganha fôlego e a torcida pode creditar parte do milagre a seu protetor, o papa João Paulo II, a ser beatificado na semana que vem. Ele está a mostrar que será santo poderoso.

Sem traição. Não houve judas a conspirar nos bastidores e o Palmeiras avança, sem maiores sustos, na Copa do Brasil. O Pacaembu lotado ontem à tarde não viu exibição de gala, mas um time pragmático, que fez 1 a 0, desperdiçou um pênalti e garantiu vaga diante do Santo André.

*(Texto da minha coluna publicada no Estado de hoje, dia 22/4/2011)

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