Fica com Deus, seu Mário

Antero Greco

21 de fevereiro de 2014 | 01h25

Mário Travaglini era desses personagens doces com que o futebol nos brinda. Um homem do mundo da bola à antiga: cordial, despojado, sempre disposto a um bom papo. Um prazer ouvir as histórias que colecionou do meio no qual passou a vida toda.

Não lembro de episódios em que seu Mário tenha sido ríspido, deselegante, esnobe, seja com jogadores, seja com imprensa, muito menos com torcedores. Era um cavalheiro, moldado na arte da boa convivência que as ruas tranquilas do Bom Retiro estimulavam. Um tiozão para os atletas, sem essa de tirano, “professor” ou manager. E estava no Parque São Jorge, na época da Democracia Corintiana. Foi campeão Paulista e em seguida saiu.

Dizem que seu Mário era palmeirense, porque de família italiana, porque morou muito tempo também no bairro da Pompeia, grudado no Palestra Itália. Não tenho bem certeza disso, nem importa esse detalhe. Ele ganhou dois títulos com o Palmeiras – o Paulista de 1966 e o Brasileiro de 67 (ou Robertão). Mas também venceu no Flu, no Vasco, além do próprio Corinthians.

Seu Mário circulava pelo bairro, pelos estádios, pelos restaurantes com inseparável bonezinho, daqueles dos nonnos, e sempre bem agasalhado. Golpe de ar costumam ser fatais, já alertavam e ensinavam as mammas. Também não ficava até tarde na rua. Não era saudável isso.

Numa das conversas com seu Mário, não sei como o assunto foi parar no Bom Retiro. “Nasci lá”, eu lhe disse. “Eu morei lá muito tempo”, ele emendou. “Nasci na Tenente Pena, 85”, informei. “Rapaz, eu morei nesse endereço, minha irmã morou lá.”

Por uma dessas coincidências da vida, meu pai comprara, na década de 1950, a casa onde vivia a família do seu Mário Travaglini. Casa em frente ao Desinfectório, e que hoje não existe mais. Assim como o seu Mário, que  resolveu virar estrelinha e se foi nesta quinta-feira, aos 81 anos.

Fica com Deus, seu Mário. A porta do céu certamente está escancarada para recebê-lo. E lá vai encontrar velhos companheiros, como Brandão, João Avellino, Filpo. Divirta-se por com a boleirada, dê um abraço no querido Djalma Santos e não esqueça do boné e do pulôver. Vai que essas nuvens sejam frias. Cuidado com o sereno.

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