Fugir da cruz*

Antero Greco

21 de junho de 2013 | 12h04

A sabedoria popular nos oferece uma frase certeira, quando pretende mostrar que alguém teme o perigo e dele busca distância a qualquer custo: “Foge mais do que o diabo da cruz”, já diziam camponeses portugueses desde os tempos de Dom Sebastião. E a ameaça no futebol, hoje em dia, vem dos vizinhos dos lusitanos, lá na Península Ibérica, atende pelo nome de Espanha e pela alcunha moderna de “Vermelha”, em vez de “Fúria”.

Dilema cruel invade a mente de brasileiros e italianos, na véspera do clássico de amanhã, em Salvador. É o confronto mais estrelado do futebol mundial, por reunir um time que conquistou o título máximo em cinco ocasiões e outro que venceu em quatro, além de dois vices para cada lado. Não é duelo de principiantes, muito menos de equipes da moda. São duas escolas com larga tradição.

Mesmo assim, a intenção é empurrar eventual encontro com a Espanha só para o momento em que for inevitável – na final do torneio, de preferência. Só lá, então, se parte para o sacrifício. Para não confrontar-se com o sofrimento já nas semifinais, basta empate para a turma da casa, pois tem seis pontos ganhos, como os italianos, mas saldo a favor de 5 gols a 2. A opção da Azzurra é apenas a de vitória, para garantir-se em primeiro lugar no grupo A e pegar o segundo colocado da chave B. No papel, menos árdua a tarefa nacional.

Felipão e Cesare Prandelli inflam o ego dos campeões do mundo e bi da Europa, e os colocam nas nuvens. Reverência justa – e forma de transferir para o bicho-papão a responsabilidade nas semifinais. A geração atual de astros espanhóis joga demais – e no tique-taque das infindáveis trocas de passes parece não mudar o ritmo, seja em treinos, em amistosos, em jogos eliminatórios, contra rivais de peso ou meros coadjuvantes, ou em final do campeonato.

Tem hora que dá raiva do autocontrole dos toureiros da bola, pela frieza com que se comportam. Em outras, pena dos rivais. Como aconteceu ontem com o Taiti. Os rapazes semi amadores vieram da Polinésia, no meio do Oceano Pacífico, pra levar lavada de 10 a 0, fora baile e pênalti desperdiçado. Pior, dos reservas do Del Bosque! Para a Espanha, não passou de coletivo, os jogadores nem suaram a camisa. O público do Maracanã alinhou-se ao lado dos sparrings taitianos por solidariedade.

Felipão não está a fim de virar presa para a Espanha. O discurso geral fica em torno do otimismo e da certeza de que não ocorrerá mudança de esquema para enfrentar a Itália. Mas a seleção ensaia estratégia cautelosa para usar, se perceber complicação na partida. Não é à toa, também, que o técnico cogita dar descanso para Paulinho e reforçar marcação no meio-campo. Arriscado ir para o principal teste até agora com atleta fora de condição física ideal.

No mais, a tendência é a de confirmar a escalação que, aos poucos, o torcedor aprende a recitar. A repetição é recurso de que se vale o treinador para acelerar o entrosamento e consolidar tática. Faltará chance para exercitar a trupe na Fonte Nova, para não prejudicar mais o gramado castigado por chuvas e vários jogos.

A Itália tem preocupação maior com o sistema defensivo. Os três gols sofridos para o Japão expuseram fragilidade, embora houvesse escalado batalhão de volantes e meias. A Azzurra oscila e há brechas claras na defesa, na armação e no ataque. Uma equipe em construção, imprevisível e sujeita a sustos e escorregões. Desta vez, não dará para apostar em Pirlo (poupado), De Rossi (suspenso) e talvez Balotelli (desgastado).

A conversa é pra constatar, ao menos na teoria, que não será fácil encarar o gigante de igual para igual. E já que comecei a crônica com frase feita, fecho com outra da terra de Camões: Brasil ou Itália, quem pegar a Espanha ficará “entre a cruz e a caldeirinha”. Espera aí: por que não ditado nosso, caseiro? Se toparem com a Vermelha, para italianos ou brasileiros vale o maroto “se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come”.

E se prevalecer “um dia da caça e outro do caçador?” Epa, será bom!

*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, 21/6/2013.)

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