Futebol chato*

Antero Greco

20 de fevereiro de 2013 | 12h19

Cresce, robusta e corada, campanha em favor de transformar o futebol em atividade enfadonha e modorrenta nesta terra outrora dada à galhofa e à irreverência. A marcha pela chatice conta com apoio entusiasmado de técnicos, dirigentes, jogadores, árbitros, imprensa, patrocinadores e torcedores. É, até o público, que deveria sempre exigir alegria e diversão de forma incondicional, aderiu ao movimento pela caretice ampla e irrestrita no joguinho de bola!

Episódios ocorridos no fim de semana ilustram a prosperidade da sisudez que corre solta nos gramados. Seriedade que tem pouco de beatice e muito de hipocrisia. Corinthians e Palmeiras fizeram um jogo empolgante no Pacaembu, com alternância no placar, como reza a boa tradição do dérbi. Até que Romarinho, que entrara pouco antes, marca belo gol, que garante os 2 a 2 definitivos. O rapaz se empolga e vai comemorar junto à torcida. Na volta, leva o cartão amarelo! O juiz exibiu a advertência todo garboso, como atestado de eficiência. Com a deferência de cronistas, analistas de arbitragem e parte da torcida, que prezam o cumprimento do regulamento. De norma equivocada e amargurada.

Semelhante zelo pela ordem sua senhoria não teve num carrinho medonho de Emerson sobre Wesley. A sapatada temerária foi contemplada igualmente com o amarelo. Euforia e violência avaliadas com o mesmo peso. E, também naquele lance, muitos especialistas e fãs consideraram adequada a conduta do juiz. Futebol, afinal, é jogo de contato, as divididas fazem parte, o risco da contusão está implícito no exercício da profissão. Conversa mole, argumentos de fariseu, como se dizia no Bom Retiro. No caso, a banalização do mal.

Pouco mais tarde, no Moisés Lucarelli, jogaram Ponte x Santos. Nos instantes derradeiros do primeiro tempo, uma confusão na área campineira desembocou em chutes no vácuo, tapinhas nos braços, beicinho, aperto na bochecha, entre Neymar e Artur. Coisa tola, pueril, só faltou um chamar o outro de bobo ou de feio ou de se provocarem com o “cospe aqui, se você for homem”.

O árbitro Luiz Oliveira não pensou duas vezes para tascar vermelho nos esquentados. E, depois, contou tudo na súmula, num primor de formalidade. (Os atletas são designados como “Sr.” seguido de nome completo.) Aplausos excitados da galera, júbilo para os justiceiros de plantão, os que saboreiam o chavão “o juiz precisa manter o controle do jogo”. Entrevero sonso, contornável com uma bronca, vá lá com um amarelo e com o encerramento da primeira fase e a recomendação de que ambos fossem esfriar a cabeça no vestiário.

Teria sido gesto simples e de fineza. Mas os apitadores preferem a demonstração ostensiva de autoridade, e a turma gosta. Os mesmos que enxergam como normal o carrinho que quebra o rival, ou o amarelo para a comemoração do gol, clamam pela repreensão severa para um quiproquó sem consequências. O rancor se intensifica se estiver envolvido Neymar, esse talento que consegue despertar admiração e tanta rejeição.

A verdade é que o futebol fica chato – e, pior, conta com o respaldo de um monte de santinhos do pau oco.

Libertadores. O Corinthians vai às alturas de Oruro para iniciar a campanha pelo bi da América. O rival no campo não é lá grande coisa. O desafio é o ar rarefeito dos 4 mil metros acima do nível do mar. Derrota não surpreende nem será desastre. Mas a moçada de Tite tem qualidade suficiente para voltar até com vitória.

*(Minha crônica no Estado de hoje, quarta-feira, dia 20/2/2013.)

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