Futebol interino*

Antero Greco

07 de julho de 2013 | 13h12

O futebol é divertido também por componentes esdrúxulos que o cercam a todo momento. Por exemplo, fala-se demais em profissionalismo nos clubes – e isso soa tão falso quanto político brandir a bandeira da transparência da administração pública. Na prática, uns e outros se fartam de improvisos, arranjos e situações tocadas no vai da valsa. E de vez em quando os cartolas, esportivos ou chapas brancas, jogam para a torcida. Dessa maneira, tudo continua igual, fica o dito pelo não dito e viva são Benedito!

Dê uma espiada em São Paulo e Santos, que fazem hoje um dos clássicos mais tradicionais do país, e vai entender o que afirmo. As duas equipes entram em campo sob o comando de interinos – Claudinei Oliveira toca o barco santista, como acontece há mais de um mês, sem jamais ser cogitado para a promoção definitiva. Milton Cruz assume pela enésima vez uma nau tricolor à deriva, e sem desejo algum de sair da condição de regra três do banco.

A ironia nessa história está no fato de que Claudinei tapa o buraco aberto com a saída de Muricy, enquanto Milton segura a vaga para… Muricy. Viu como a roda gira, gira, gira e não sai do lugar? Parece que desde a eternidade as agremiações apelam para a demissão de treinadores como solução para as turbulências e, sem muita criatividade, recorrem ao mercado limitado, em que sobressaem os mesmos nomes.

O amadorismo alastra-se mais do que fogo na mata seca. Os times ficaram em torno de 30 dias sem compromissos oficiais. A maioria gastou o tempo com folga e treinamentos diversos. Os dirigentes tiveram oportunidade para trocas bem pensadas e digeridas. Em vez disso, ficaram a ver estrelas. O Santos fez um alarido com a eventual chegada de Marcelo Bielsa, mas o argentino pediu isso e aquilo, justamente para não dar samba. Não deu. Depois, houve flerte com Gerardo Martino, do Newell’s Old Boys e… nada. Optou por manter um quebra-galho.

O São Paulo fritou Ney Franco em fogo brando muito antes de a equipe acumular fiascos na Libertadores. Só que enrolou o quanto pôde e se mexeu para demiti-lo só na sexta-feira, dois dias após a derrota para o Corinthians na Recopa. Se havia insatisfação com o trabalho do professor, por que não partir para a ação na pausa? O mesmo fez o Grêmio com Vanderlei Luxemburgo. Estavam todos fascinados pelos jogos e protestos de rua pelo Brasil durante a disputa da Copa das Confederações?

São Paulo e Santos viraram duas incógnitas, e para amenizar o risco de estragos o Brasileiro mal começou, tem 33 rodadas pela frente. Permite recuperação para os 20 participantes. Na teoria, os alvinegros passarão por transformação maior. No mínimo, porque perderam Neymar, o astro, o maestro, o jogador que desequilibrava. E ficaram também sem o goleiro Rafael. O grupo tem muitos jovens, vários veteranos e qualidade irregular. Na fase final do trabalho de Muricy se fragmentou, não passa confiança ao torcedor. A responsabilidade recai, agora, sobre Montillo, que desembarcou na Vila como o cérebro do meio-campo e não vingou no primeiro semestre.

O São Paulo tem elenco bom, longe de ser extraordinário, porém acima de muitos concorrentes. Só que funciona com espasmos de eficiência. Ney Franco pecou por não encorpar a equipe e falhou em escolhas táticas. Como contraponto, é necessário ressaltar que tem gente badalada ainda a dever, sem render o que pode. Ganso é a síntese da inconstância: demorou para entrar em forma, não cativou o técnico, várias vezes ficou de cara feia. Quem sabe, agora desencanta? Está na hora.

Pelas indefinições, contratempos, cobranças das respectivas torcidas, sabe o que pode acontecer no San-São, como o duelo foi imortalizado pela finada A Gazeta Esportiva?: virar um jogão, com emoção, gols, tensão, polêmicas. Isso mesmo. Por carregarem interrogações mais visíveis do que as marcas dos patrocinadores, não surpreenderá se ambos se desdobrarem. A contradição é outro condimento delicioso do futebol.

*(Minha crônica no Estado de hoje, domingo, 7/7/2013.)

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