Futebol, redes sociais e liberdade de pensamento

Antero Greco

08 de janeiro de 2014 | 01h05

Umas folgas de final de ano, prejudicadas por uma crise de gastrite, me tiraram do trabalho mais do que gostaria. Os dias em casa, porém, foram bons para aquela arrumação de papéis, para acelerar leitura e para observar o que rola pelo mundo real e virtual.

E uma constatação pude fazer deste período de repouso: as redes sociais são um instrumento poderoso, e perigoso nas mãos de quem as usa para o mal. São ferramentas ótimas para manipular opinião e transformar mentiras em verdades. Graças a Deus não existiam com tal fartura na época de Goebels! O Nazismo talvez tivesse produzido estragos mais nefastos.

Há uma histeria no ar, e provocada por futebol. Não se fala da violência das prisões, materializada pelas chacinas no Maranhão. Não se reclama contra corrupção, que nos torna um país caríssimo e carente. Não se clama por mais dignidade e respeito dos cidadãos.

A indignação, veja só, surge por um jogo em que marmanjos correm atrás da bola e que deveria ser apenas diversão para quem acompanha. O inconformismo vem, supostamente, por campanha de “difamação e ódio” contra agremiação futebolística, o venerável Fluminense.

Culpados por essa onda de caça às bruxas seria a imprensa. Ou, mais especificamente, parte da imprensa esportiva, da qual faço parte. Qual o crime cometido por alguns jornalistas? O de colocar-se contra o Tribunal Esportivo, que puniu a Lusa de forma desmedida ao erro que ela cometeu. Com a perda dos pontos, a equipe caiu para a Série B e o Fluminense, por circunstâncias da classificação final do Campeonato Brasileiro, se manteve na elite.

A argumentação de profissionais com larga experiência no jornalismo não convenceu a todos – e nem haveria essa pretensão. A divergência é um dos fundamentos para a sabedoria. Só que, diante da repercussão negativa que teve o resultado dos julgamentos nos tribunais, torcedores da equipe beneficiada não tiveram coragem de assumir a bronca provocada nos demais e a repassaram para a imprensa. De um momento para outro, jornalistas de peso viraram vilões e irresponsáveis. (E admito que há oportunismo, pois torcedores de outros clubes teriam tido comportamento idêntico, se o tribunal os beneficiasse.)

Em vez de debate civilizado, começou a série de insultos, sobretudo no Facebook e no Twitter. Canalha, bandido, energúmeno, asno, idiota, imbecil, covarde, fdp, foram alguns termos repetidos ad nauseam.  Fora os comentários maldosos em blogs, os abaixo-assinados repletos de preconceitos e inverdades e as correntes xiitas que pretendem retratação dos meios de comunicação e seus profissionais que não aceitaram o veredito de um tribunal. Como se esse tribunal fosse infalível.

Critiquei, e não arredo pé, do rigor com que foi tratado o caso da Lusa. Dei minha opinião no jornal, no blog e na tevê, e me baseei em juristas. Aliás, mentes brilhantes, acostumadas aos meandros do Direito também sustentaram tese semelhante à minha. Assim como outras, igualmente respeitáveis, disseram que o tribunal estava certo. Tema, portanto, polêmico. Há controvérsias na Justiça. Caso contrário, nem seriam necessários tribunais, advogados, juízes…

Infelizmente, na fantasia doentia de gente que não consegue viver com a divergência, virei um dos inimigos do Fluminense, um incitador da intolerância e da violência, um fora da lei! E justo eu, que devolvo até centavos de troco, se me derem a mais! E dá-lhe todo momento a ler insultos e ameaças (sim, ameaças de retaliação física) de cidadãos que nunca vi e que provavelmente, se encontrasse pessoalmente, viriam conversar de maneira pelo menos comedida.

Nos próximos meses, completo 40 anos de profissão, a maior parte desse tempo na crônica esportiva. Minha história, minha carreira, meus comentários, meus textos falam por si. Jamais fui leviano, nunca seria demente de acirrar ânimos, fomentar discórdia, racismo, bairrismo, xenofobia, atos de vandalismo, linchamentos e coisas abjetas do gênero. Sou da paz, sou católico, tenho filhos, sobrinhos, genros e sei da responsabilidade da minha profissão. Não sou tosco. E defendo tratamento digno até para os que cometem crimes. Acredito no homem.

Mesmo assim, cabeças ocas deliram e creem que a imprensa esteja por trás de atos agressivos de rivais do Flu. Infelizmente, os desvairados não precisam do “estímulo” da imprensa para atacar os outros. Eles depredam, arruínam, batem, apanham em qualquer lugar e por qualquer motivo. Seja provocando um tricolor, seja pisoteando um corintiano, um atleticano, um vascaíno, um palmeirense. Para esses, sim, a solução está em algum tipo de internação – ou numa clínica psiquiátrica ou na cadeia.

Os mesmos que hoje cultivam esse ódio paranoico se dedicassem uns minutos a ler meu blog ou a manusear a coleção do “Estadão”, encontrariam muitas crônicas favoráveis ao Flu. O mesmo ocorreria se escarafunchassem as fitas do acervo da ESPN/Brasil. E não escrevi ou falei por simpatia pelo Flu ou para fazer média, mas porque era o que ditavam minha consciência, meu senso crítico. Fiz o que se exige de minha profissão. Ou seja, mantive minha independência, sempre, sem fazer campanha a favor ou contra quem quer que seja.

Se, ainda assim, há quem veja em meu comportamento um foco de calúnia e difamação, peço que vá à Justiça, me processe. Seria o primeiro processo que enfrentaria nessas décadas todas de militância no jornalismo. Mas levante dados concretos de que sou facínora, desagregador, perturbador da paz. Faça isso! Será uma grande contribuição para a sociedade.

Pois certamente a Justiça detectará quem estimula a intolerância. Uma simples “passeada” nas redes sociais servirá para desmascarar os covardes, os intolerantes, os mentirosos, os que se valem do terror para impor ideias, os que se escondem sob nomes falsos para atingir a honra de cidadãos de bem, que unicamente exercem sua profissão com transparência. Um juiz ponderado avaliará de onde parte o destempero.

Proponho por fim que os exaltados repensem sua estratégia. Radicalismo não levará a nada, só trará raiva, dor e tristeza. E os extremistas jamais tirarão meu bem maior: a liberdade de pensar. Minha consciência nunca esteve à venda.

Feliz 2014 a todos.

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