Futebol traiçoeiro

Antero Greco

29 de janeiro de 2011 | 01h58

O futebol por natureza é atividade solidária. Verdade que há os grandes astros, que se destacam como os solistas de orquestras e tornam o espetáculo mais bonito. São imprescindíveis. Mas seu brilho se realça com o desempenho dos demais integrantes. Por isso, se fala no coletivo: time, equipe, conjunto, elenco, grupo. O princípio de confiança e camaradagem deveria, portanto, prevalecer.

Meias-verdades. O futebol é campo fértil para traições, intrigas, promessas fúteis e choque de vaidades. Muitos sorrisos estampados em fotos ou difundidos por imagens de tevê não passam de pose, de “fita” como diziam as comadres do Bom Retiro. São incontáveis os episódios de falsos amigos, que em público trocam elogios e na prática fazem de tudo para prejudicar-se. Quando não se juntam para derrubar desafetos. Qualquer um vai dizer que é coisa do passado, que hoje em dia não vingam conspirações. Sei, acredito…

Técnicos costumam estar no centro de crises dos clubes. A coisa mais antiga do futebol é dar um chute nos fundilhos do “professor” tão logo os resultados não apareçam ou o time faça água. Claro que muitas vezes merecem a dispensa, como ocorre em todo tipo de atividade. Na maioria dos casos, porém, a demissão não passa de saída mais fácil, usada por covardia, para que o dirigente se resguarde e sossegue a ira dos torcedores. E, por tabela, para escamotear seus erros e fraquezas como administrador.

O caso de PC Gusmão, demitido nesta sexta-feira pelo Vasco, é a mais recente manifestação desse círculo vicioso sem fim. Não o considero brilhante – é um dentre tantos operários na sua área. Provavelmente passará a vida profissional de galho em galho, com certo brilho aqui, oscilação ali, quem sabe um título. Seguirá, como a maior parte de seus colegas, destino cigano, hoje no Rio, amanhã no Recife, depois de amanhã no mundo árabe, no mês que vem no Rio de novo. Impensável supor que algum deles firmará raízes como, por exemplo, Alex Ferguson, que há duas décadas manda e desmanda no Manchester, com ou sem taças.

PC levou uma baita bola nas costas de Roberto Dinamite, especialista em iludir zagueiros nos seus tempos de centroavante. O presidente vascaíno, saudado como representante de novos tempos ao demolir a tirania de Eurico Miranda, deu outra mostra de que mudam os nomes porém permanecem sólidas as velhas práticas da cartolagem.

No começo da noite de quinta-feira, jurou de pés juntos que PC seria mantido, apesar das três derrotas consecutivas da equipe no Estadual do Rio. Ele não via sentido para prematura troca de comando, com a equipe em fase de reformulação. Pouco mais de 12 horas depois, avisa que o treinador estava de saída, com as desculpas rotineiras: o futebol vive de resultados, o ciclo fechou, a instituição precisa ser preservada, é um grande colaborador e por aí vai…

PC não é um coitadinho, sabia do terreno em que pisava, teve sua parcela de culpa no fato de o Vasco estar emperrado. E deu também suas cutucadas em atletas. Até perdeu o norte, dias atrás, ao dizer que se sentia preparado para cobranças, e acrescentou, como se tivesse encontrado uma notável frase de efeito: “Quem não quer pressão que vá trabalhar em banco.”

Trocar de técnico encerra a questão? Não, só funciona como sossega-leão com os fãs mais exaltados. O Vasco é time forte, e o treinador não foi eficiente? Não também. Roberto Dinamite e a torcida sabem disso. Talvez tenha atualmente o elenco mais pobre dos quatro grandes cariocas. E duas estrelas rifadas, igualmente para aplacar a ira da turba: Felipe, a um passo da aposentadoria, e Carlos Alberto, famoso pelas variações do visual, por lampejos de bom futebol e por repetidos períodos de inatividade.

Tomei o Vasco como exemplo, mas esse é tema universal. Por aqui, mal foi dado o pontapé inicial no Paulistão e eis que São Caetano e Grêmio Prudente mandaram seus treinadores passearem. É tudo igual. Por falar nisso: o futebol é tão cheio de traições como a vida.

Atire a primeira pedra quem nunca levou um chega pra lá de alguém que considerava leal.

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