Ganso e a imprensa italiana

Antero Greco

17 de fevereiro de 2011 | 12h55

Ganso afirmou ao Corriere dello Sport que conversou com Leonardo (técnico da Inter de Milão) e que está disposto a ir para um clube italiano. Isso foi publicado ontem. Hoje, o mesmo jornal informa que o Milan largou na frente e já assinou compromisso com o jovem astro do Santos. E aí: ele vai para Inter ou Milan? Pode ser um, pode ser outro. Importa que a polêmica esteja lançada.

Costumo ficar com um pé atrás quando leio, em jornais italianos, entrevistas de jogadores que ainda estão por aqui ou quando dão como transferências concluídas o que não passa de sondagem. Muitas vezes, eles acertam, claro, pois se trata de imprensa que fuça, investiga, vai fundo. Mas em muitas ocasiões – e bota muitas nisso – se antecipam na raça. Se a notícia se confirmar, tudo bem; caso contrário, faça-se o desmentido e bola pra frente.

A imprensa de lá também gosta de declarações fortes nas entrevistas e costuma “carregar nas tintas”, como se dizia antigamente, para tornar o papo mais atraente para seu leitor. De uma conversa fiada com um jogador qualquer muitas vezes um jornal esportivo italiano pinça “revelações fantásticas”. O negócio é fazer que uma reportagem sempre pareça espetacular.

Falo isso de cátedra, pois durante 13 anos fui correspondente aqui de um desses jornais, que tem sede central em Roma. Era a época de Falcão, Zico, Cerezo, Júnior, Sócrates e outras feras. Grande aprendizado (escvrevia em italiano e tinha excelentes fontes) e muita lisura no trato comigo, tanto por parte desses craques como do jornal.

Havia um detalhe curioso: a turma da redação entrava em contato comigo, pedia entrevistas com aqueles ídolos ou com algum que estivesse na mira dos clubes locais. Mas, vira e mexe, acrescentava uma recomendação. “Fa un pó di rumore” (“Agita um pouco.”) Eu respondia que escreveria apenas o que apurasse e nada mais. Ninguém me contestava, nem distorcia o material que eu enviava. Ainda bem.

Por isso, dou um desconto generoso ao ler frases desenvoltas e cheias de detalhes que nossos jogadores fazem jorrar nas entrevistas para os italianos. Impressionante como aqui muitos são lacônicos e mal articulam duas ou três sentenças com lógica. Daí, a gente pega jornais da Bota e lá estão verdadeiros tratados sobre futebol, sobre a Itália e o calcio. Acho que nossa boleirada de se finge de boba com a gente e abre o jogo para os gringos.

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