Ganso e o mito do “juiz ladrão”

Antero Greco

20 de fevereiro de 2015 | 21h23

Ricardo Marques está irritado com Paulo Henrique Ganso e promete processá-lo. O juiz de futebol irritou-se com críticas do jogador a seu desempenho no clássico entre Corinthians e São Paulo pela Libertadores. Na avaliação do meia, não houve erro, sobretudo no lance do segundo gol corintiano, “mas roubo”. Por isso, o árbitro deveria“sair de camburão” do estádio.

O desabafo de Ganso foi tomado como injurioso por Ricardo Marques, que pretende ver-se resgatado pela Justiça comum, além eventualmente de punições na esfera esportiva. É um direito dele, como qualquer cidadão, pedir reparos a eventuais danos. Se obterá sucesso ou não, será por conta do entendimento de quem julgar a ação.

Razão pessoal à parte, vamos ao que interessa: dá para levar a sério o que diz um atleta ao ser entrevistado de cabeça quente, à beira do gramado, depois de uma derrota incontestável? Dá para acreditar que Ganso pensa que Ricardo Marques seja de fato um gatuno, um desonesto que entra em campo para tungar uma equipe? Ou tudo não passa de papo da boca pra fora?

Tendo a cravar a última alternativa. Xingar juiz de “ladrão” é tão antigo quanto os adjetivos dirigidos à mãe do próprio. Faz parte do folclore do mundo da bola, lugar-comum – mal-educado até, sem dúvida, mas que não passa de ato inócuo.

Você imagina a existência de algum juiz que jamais tenha sido xingado? Que nunca ouviu insinuações ou “denúncias” de que roubou para este ou para aquele? Não existe essa figura. Até nos meus tempos de colégio, quando algum padre (de batina e tudo) apitava jogos ouvia esse tipo de insulto. Era na base do “seu padre, o senhor está roubando pra eles…” Nem por isso, o santo homem nos expulsava do colégio ou mandava para o juizado. No máximo, mostrava vermelho e nos tirava o prazer do restante da pelada.

Fosse Ricardo Marques não levava o episódio a fundo. Não vale a pena. Se é honesto, e não tenho motivos para pensar o contrário, nem deve sentir-se atingido. Assim como tem certeza da lisura e respeitabilidade da mamãe. Essas bobagens ditas por jogadores não passam das quatro linhas. E, por mais que se ameacem jogadores e técnicos, a figura do “juiz ladrão” sempre existirá no imaginário popular. Fosse assim, seriam raros boleiros ou ‘professores’ a se livrarem de processos por calúnia, injúria e difamação contra os “homens de preto”.

E não venham com papo de que se trata de algo politicamente incorreto. O futebol, como arte – e arte popular ainda por cima – deve ser politicamente incorreto. Daí também vem a magia dele.