Gastar vela com mau defunto virtual

Antero Greco

09 de fevereiro de 2012 | 17h12

Uma brincadeira antiga de redações dizia que “o papel aceita tudo”. Era uma forma de os jornalistas mais veteranos lembrarem que muita bobagem saía no jornal nosso de cada dia. Coisas desnecessárias continuam a ser publicadas, só que desta vez em um universo amplo, infinito, que é a internet. Como espaço não é problema, somos bombardeados com milhões de inutilidades a todo momento.

Leio agora, por exemplo, que um site americano de esportes elaborou uma lista de 20 times que poderiam formar uma Liga Mundial de futebol. Do joguinho de bola consagrado em qualquer parte, o soccer; não o football deles. Fiquei na dúvida se citava o nome do dito cujo – mas, vá lá. Em homenagem à transparência e à liberdade de expressão, despejo aqui: é o Bleacher Report … ponto qualquer coisa.

Pois bem. Um articulista bolou uns critérios que lhe vieram na veneta, fez uns cálculos (números sempre dão ar de respeitabilidade a certas coisas sonsas) e chegou à conclusão de que essa Liga deveria ter quatro representantes da Inglaterra: Arsenal, Manchester United, Manchester City e Chelsea. Três espanhois: Barcelona, Real Madrid e Valencia.

Entrariam ainda dois times da Alemanha (Borussia Dortmund e Bayern de Munique), três da Itália (Juventus, Milan, Inter), três (!) da França (PSG, Lyon, Olympique Marselha), mais CSKA Moscou, Shaktar Donestk (o time ucraniano preferido de técnicos da seleção brasileira), Boca, Porto e o nosso Corinthians.

Daria um bom campeonato? Sim. Mas os critérios podem ser contestados. Eu posso montar uma Liga com os meus critérios, você pode bolar outra e assim por diante. Por exemplo: o que justifica ter três franceses? A troco de quê? Qual o peso internacional deles? O que é o Lyon? O que representa o PSG? São times importantes em seu país, mas sem representatividade internacional.

O mesmo dá para dizer do Manchester City e do Chelsea. São equipes da moda, porque recebem rios de dinheiro de russos e outros bilionários. Mas considerá-los mais importantes do que o Liverpool, por exemplo, é dar um pontapé na história do futebol. O mesmo raciocínio se aplica à presença do Valencia. O cara está de brincadeira.

O Porto é ok. Mas e o Benfica? O americano nem deve saber o que representou o time lisboeta no futebol de Portugal e mundial. Sem contar que, por aqui, se despreza o Peñarol. E como imaginar que Santos, São Paulo, cada um com suas três Libertadores e com seus Mundiais, sejam relevados. Grêmio, Flamengo, Cruzeiro, Inter têm duas e passam batidos?!

Fico por aqui. O resto depreenda você mesmo. É muita bobagem em internet. (Pensando bem, até este post é a prova de como se gasta vela com mau defunto no mundo virtual…)

 

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