Gattuso, ou quando o personagem atrapalha o jogador

Gattuso, ou quando o personagem atrapalha o jogador

Antero Greco

16 de fevereiro de 2011 | 14h51

Gennaro Gattuso faz parte daquela categoria de jogadores que, desde o começo da carreira, são aplaudidos por mostrarem garra e espírito de luta. São os guerreiros, os gladiadores, sempre vistos como necessários no futebol. (E isso me faz lembrar a propaganda ridícula da seleção antes da Copa de 2010…) Enfim, são os xerifes, gente que entra em campo para colocar ordem na casa e para impedir que os adversários, sobretudo quando visitantes, se sintam à vontade.

Não sou contra os gattusos da vida – muitas vezes, eles funcionam de fato como motivadores. No final de outubro, eu o vi em ação, no San Siro, na reação do Milan diante do Real Madrid. Gattuso correu o tempo todo, suou, deu carrinhos, combateu, mostrou a seus companheiros que a derrota não era inevitável. No fim, os italianos arrancaram empate de 2 a 2, com uma ajuda e tanto da arbitragem, pois Inzaghi estava impedido no lance de seu segundo gol.

Há momentos, porém, em que jogador estilo Gattuso encarna demais o personagem do machão, atrapalha a equipe, perde a mão, esquenta a cabeça e desce a botina a torto e a direito. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Felipe Mello no fatídico jogo do Brasil com a Holanda, no Mundial da África. Fo o que aconteceu com o próprio Gattuso na terça-feira. De tanto querer impor-se, saiu do tom, desestabilizou o time e saiu de campo com derrota. Melhor para o Tottenham, que fez 1 a 0 e agora só precisa de empate para classificar-se.

Gattuso foi tema de jornais italianos e ingleses nesta quarta-feira. A imprensa da Itália deu-lhe puxões de orelhas, com a ressalva de que é um cara bacana, simpático, gentil. Buona gente. A mídia da Inglaterra passou do tom, o que não surpreende. Teve tablóide que chamou o Milan de “time mafioso” e teve também quem o definiu como “Milanimals” – pelo comportamento do volante e pela patada que Flamini desferiu em Corluka. Demagogia fácil dos britânicos.

Se fossem só os pontapés no jogo, não seria surpresa o comportamento de Gattuso. Agravantes, no seu caso, foram as agressões a Joe Jordan, auxiliar do técnico Harry Redknapp. Durante o jogo, o italiano deu um chega-pra-lá no queixo de Jordan (atacante do Milan no começo dos anos 1980) e no final acertou-lhe uma cabeçada. Cenas feias, covardes.

No final, pediu desculpas por atacar um homem de 59 anos, o que talvez não seja suficiente para impedir punição pela Uefa. Há risco de pegar 3 jogos de suspensão. Terá valido a pena? Certamente, não. Mas o constrangimento poderia ter sido evitado, se o técnico Massimiliano Allegri o tivesse tirado de campo, ao perceber que estava descontrolado. E cadê peito pra isso? Essa é outra história. O Milan, por bobagem e descontrole, está próximo da eliminação.

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