Gentalha e anêmicos*

Antero Greco

16 de agosto de 2013 | 19h51

Falar de gols, dribles e craques é o que há de mais gostoso para quem se ocupa de palpitar a respeito de futebol. Sempre me deliciei com textos impregnados da emoção que transborda dos gramados. Mas em certos momentos não dá para driblar assuntos que deveriam ser periféricos e que, no entanto, interferem na rotina de uma paixão universal. Nessas horas, o joguinho de bola vira laboratório para observar o comportamento humano.

Neymar e Bernard bateram asas ao mesmo tempo. Apareceram anteontem, viraram astros, despertaram a cobiça de estrangeiros e sucumbiram ao poder da grana. Vão evoluir na Europa, como é voz corrente por aqui. Dois jovens talentosos deixam fãs de Santos e Atlético-MG a ver navios, para alegrar os privilegiados seguidores de Barcelona e Shakhtar.

Tudo bem, lei da vida. Mas reparem na coincidência. Ambos mal desembarcaram e se constatou que há algo de errado com o físico deles. Neymar teve diagnosticada anemia; Bernard voltou de passeio de reconhecimento na Ucrânia com a certeza de que precisará de “ganho muscular” para aguentar o tranco dos marcadores do campeonato local. Os dois moços logo ostentarão perfil mais troncudo e potente.

Por que têm de submeter-se a tratamentos com vitaminas, suplementos e similares? O que atraiu os gringos não foram a destreza, o talento, a ousadia, o arranque dos rapazes? Não são essas características que os distinguiram, a ponto de estimularem o investimento de milhões de euros? Qual o motivo para que se transformem em gladiadores? Que impacto isso provocará no estilo deles? E as consequências no corpo, com o rápido passar da carreira?

O Barça havia anunciado, antes da apresentação de Neymar (e depois de submetê-lo a exames médicos) que deveria engordar 5 quilos. Após a operação de amígdalas, veio o papo de 7 quilos abaixo do peso ideal. Tudo isso?!

Como assim? O que sugeriram com tal conversas? Que houve descuido? Muito bem. Se Neymar está anêmico, por que viajou para a Ásia, no giro de exibições do novo clube, com jogos, cerimônias sociais e compromissos oficiais? Se estava fracote, deveria ficar em casa, de repouso, a tomar papinha e fortificante. Se o Barcelona o levou a tiracolo, agiu de maneira leviana. Também não deveria liberá-lo para o amistoso de anteontem com a Suíça. E, para quem está jururu, Neymar se saiu bem: correu, driblou e chutou adversário. Além de anêmico virou estressado?

A propósito de Barça, modelo internacional de modernidade administrativa e técnica: como explicar o papel do presidente, Sandro Rosell, na história relatada por Jamil Chade sobre o caminho do dinheiro dos jogos da seleção pelo mundo? A reportagem do esplêndido correspondente do Estado é de arrepiar, ao mostrar que mais ou menos um terço do cachê do time não vinha para os cofres da CBF, após entrar no caixa de empresa aberta nos EUA que tinha o cartola espanhol como um dos sócios. Por sinal, muito amigo do ex-todo-poderoso que se refugiou em Miami. Lembra? O homem bajulado por seus pares, patrocinadores, políticos e parte de nossa mídia. Aquele que se escafedeu da noite pro dia era chamado de “doutor” e tinha tratamento de chefe de Estado.

Já o torcedor que aceitou a promoção feita ontem pelo São Paulo e pagou entre R$ 2 e R$ 10 para ver o jogo com o Atlético-PR (e sofrer com o empate de 1 a 1, que o mantém no fundo da tabela), pode considerar-se incluído na categoria de gentalha. Pelo menos é o que se depreende de opinião de certos especialistas em gestão e marketing esportivo.

Um dos gurus dos amantes de números, gráficos e cifras no futebol, fonte usual para pautas com viés sofisticado em jornais e tevês, lamentou apelo tricolor a medida popularesca na tentativa de encher o Morumbi (público de quase 26 mil). Pois a pechincha desvalorizaria a marca e atrairia a bandidagem para as arquibancadas. Como se honestidade e retidão se medissem por poder aquisitivo e conta bancária.

*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, dia 16/7/2013.)

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