Gol de goleiro*

Antero Greco

09 de agosto de 2013 | 11h28

O futebol anda tão sofisticado que estádios viraram arenas, muitas com naming rights e todas com setores vips. Cartolas são CEOS, que buscam patrocínio master para os times. Técnicos foram alçados à categoria de managers que precisam controlar os vestiários (achava que só porteiro fazia isso). Jogadores têm staff e ficou normal darem entrevistas por e-mail ou por skype, enviadas por smartphones.

Os clubes divulgam informações por Instagram, sites, Facebook, Twitter. Dor muscular agora se chama desconforto. Rareiam apelidos prosaicos como Dé, Deda, Cabeção, Careca, Alfinete, Maizena, incompatíveis com tempos que correm. Proliferam os nomes compostos e chiques.

Mas há reações que permanecem inalteradas, como os bafafás, a simulação, a cera, o boleiro que tira a camisa para comemorar gol. Uma das cenas, no entanto, que comovem pra chuchu é a do goleiro na área do rival numa jogada de falta ou escanteio em cima da hora. Ver o grandalhão, pesado, de luvas, sair lá de trás e disparar no ataque para ajudar o restante da equipe tem dramaticidade de tragédia grega. A corrida desesperada mexe com o torcedor, espalha adrenalina como raio, contagia. Impossível ficar indiferente ao ato extremo daquele que tem como função justamente evitar o gol. É o goleiro a negar a própria identidade.

Como são raros os desfechos felizes nesses lances, se tornam ainda mais épicos os gols marcados pelos guarda-valas, como os descreviam os antigos locutores de rádio. Por isso, não deu para deixar de vibrar com a cabeçada de Lauro, no último segundo dos acréscimos do jogo com o Flamengo, no Mané Garrincha, na noite de anteontem. A Lusa perdia por 1 a 0, se afundava na classificação do Brasileiro, o cronômetro corria implacável. Que aflição!

Daí aparece o Lauro, na cobrança do córner, em tempo de pular com atacantes, zagueiros, meias – enfim, se enfiou no rolo na área. A testada saiu colocada, no canto esquerdo baixo, sem que Leo Moura e Felipe conseguissem impedir a bola de entrar. 1 a 1. Garanto que até rubro-negro ficou com vontade de aplaudir a coragem do moço, mesmo com os dois pontos roubados quase na hora em que o juiz colocava o apito pra dar a assoprada derradeira.

Momentos assim humanizam o esporte, mostram que há gente no gramado e não robôs. Pouco importava se o golpe desse errado e o Fla arrancasse para o segundo gol. Não era a racionalidade que predominava, mas a emoção, o desejo de evitar a derrota, o instinto de preservação. E, por que não?, o prazer de jogar que levou o Lauro para a base do tudo ou nada. Heróis surgem em grande parte assim, espontaneamente. A ocasião os leva à consagração.

Lauro por instantes ressuscitou regras não escritas, porém seguidas à risca, do futebol de rua. Quando nas grandes cidades se podia bater bola no asfalto, desde que tomadas cautelas básicas. Como a de não quebrar janelas dos vizinhos e parar imediatamente tão logo um carro apontasse na esquina.

Gol de goleiro, por exemplo, em muitos bairros paulistanos não valia. Ele só estava lá pra pegar. A não ser que atuasse como goleiro-linha – privilégio que o autorizava a chutar ao gol e também a fazer defesas. Só não podia mandar de bica; aliás, ninguém podia, porque doía as mãos do coitado do goleiro adversário e havia o risco de estragar a bola. No joguinho de cobranças de pênalti, o gol de rebatida valia dois.

Se numa jogada havia pênalti, mas na sequência saía gol, então valia o gol. Bola furada em jogo não se pagava, assim como rebatida sempre foi da defesa. O placar poderia ser definido de várias maneiras: vira 6, acaba 12. Em caso de empate persistente, de falta de luz natural ou da mãe chamando para ir pra casa, então quem fazia o primeiro seria o vencedor. A meninada inventou o gol de ouro muito antes do que a Fifa.

Com o gol, o goleiro Lauro fez muito marmanjo entrar no túnel do tempo. Bom que tenha sido no Mané Garrincha; por esses acasos da vida, acabou sendo linda homenagem àquele que foi a Alegria do Povo.

*(Minha crônica no Estado de hoje,  sexta-feira, 9/8/2013.)

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