Grana alta. E daí?*

Antero Greco

08 de setembro de 2013 | 02h21

Reportagem de Almir Leite, no Estadão, mostra a avidez da CBF em busca de patrocinadores para a seleção. Até agora são 13, das mais variadas marcas e ramos de atividade, e não param de aumentar. Brota empresa como capim interessada em estampar logotipo em algum canto que seja do uniforme ou dos painéis publicitários da maior vencedora de Mundiais e anfitriã da próxima Copa. Momento de a entidade nacional nadar em dinheiro.

Como se vive em sociedade capitalista, nada a condenar com a busca de receitas e de lucro também no esporte. Como já virou mantra lembrar, o joguinho de bola há muito deixou de ser recreação e virou business, que movimenta money a rodo all around the world. Abuso do inglês para mostrar que o negócio é chique e sério. Até a meninada já tem procuradores e assessores tão logo sai do cueiro e dá os primeiros pontapés na pelota. Doida pra chamar a atenção de algum grande time europeu e se mandar rápido.

A turma da CBF, que não brinca em serviço quando se trata de bufunfa, aproveita a maré a favor e assina contrato com banco, empresa de telefonia, frigorífico, companhia aérea, cervejaria, fábrica de laticínios. Caiu na área, topou as condições financeiras, acordo fechado. Se guardasse tudo em um cofre próprio, hoje seria do tamanho da caixa forte do Tio Patinhas. Faria crescer os olhos dos irmãos Metralha.

O mais bacana está no fato de que a CBF nem precisa apelar para marketing agressivo. Os interessados vão bater no luxuoso prédio Tijuca (a sede da rua da Alfândega virou peça de museu) ávidos para expor ao mundo seus produtos. Por aquilo que o Almir conta, e não duvido da exatidão do relato, dá para deduzir que tem até senha para atendimento. “Qual seu artigo, por gentileza? Temos vaga para ele. Favor voltar na semana que vem para acertarmos tudo.” Ou, então, recusar similares. “Que pena, este já temos. Quem sabe numa próxima ocasião. Até mais.” E por aí vai. A freguesia é vasta.

Perfeito. Que Deus os ajude e não se esqueça de nós, dizia o Toninho Cazzeguai, maior filósofo da várzea do Bom Retiro e a quem jamais eu iria contradizer. Mas o que essa bonança significa para o desenvolvimento do futebol no país? O que os clubes ganham com a enxurrada de reais que faz transbordar a conta bancária da CBF? Qual a parte que lhes cabe nesse latifúndio em que se transformou amarelinha? Em que medida têm proveito em sua rotina?

As interrogações parecem descabidas, porque a CBF tem como argumentar que a preocupação fundamental está na melhoria de condições de trabalho de todas as seleções, daquelas de base à principal. Os clubes têm seus recursos próprios, com patrocinadores específicos, com venda de publicidade estática nos estádios, ingressos, sócios, direitos de televisão. Como se fossem instituições autônomas, que não precisam de amparo irrestrito. Pode alegar, ainda, que jogadores se valorizam com convocações, o que representa lucro para as equipes em eventuais transações com o exterior. À CBF caberia apenas organizar os campeonatos e dar-lhes respaldo jurídico.

Mais ou menos. Os times são a base de sustentação da CBF e, por extensão, de quaisquer seleções. O que importa ter seleção forte e equipes débeis, com pires na mão, como é o caso da maioria por aqui? Uma é para momentos especiais, quando a pátria calça chuteiras, enquanto as outras fazem parte do cotidiano do torcedor, são sua paixão maior. E estas contam pra valer. Por isso, tanto faz se a CBF arrecadar bilhões (parabéns!) ou se ficar na pindaíba (que pena!).

Acima dela estarão sempre os times. É como falarmos em nação rica. E daí, o que vale um PIB bem grandão, se o povo for pobre?

*(Minha crônica na primeira edição do Estado de hoje, domingo, dia 8/9/2013.)

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