Heróis da resistência*

Antero Greco

23 de março de 2014 | 15h26

O bafafá provocado pela depredação do escritório do Palmeiras que vende ingressos para os associados do projeto “Avanti” me levou a uma constatação preocupante. Como gosto de ler comentários nos sites, sempre que há uma notícia polêmica, não perdi a oportunidade de conferir também o que a rapaziada disse a respeito desse episódio embaraçoso. Me deparei com o de sempre: gente que defendia a direção, outros que atacavam o suposto privilégio concedido para quem se filiou à promoção.

Enfim, seria a lenga-lenga costumeira, se não fossem duas ou três intervenções fora do padrão. Com termos diferentes, diziam mais ou menos o seguinte: o presidente Paulo Nobre não entende nada de arquibancada. Porque, se soubesse o que se passa naquele espaço, não confiaria a “torcedores comuns” a tarefa de representar os palestrinos na Vila Belmiro.

Sempre de acordo com os autointitulados especialistas no assunto, incautos que imaginam descer para a Baixada com o carro próprio, encostar nas redondezas do estádio e entrar em busca do lugar que reservaram vão quebrar a cara. Não é assim que as coisas funcionam no reduto alvinegro.

A barra é pesada e, se estiverem presentes 700 ingênuos (a parte que coube ao Palmeiras nos bilhetes), não será tropa suficiente para segurar o rojão. Ou seja, se faz necessária tropa de choque para garantir a voz alviverde.

Rapaz, que peculiar visão do significado das tribunas populares, que durante décadas funcionavam como lugar democrático, aberto para todos os tipos de fãs de futebol. Agora, se transformaram em territórios a resguardar, guetos em que apenas os mais fortes e bem preparados podem ocupar, como heróis da resistência no campo rival.

Chato, pior de tudo, que essa loucura faz sentido. Não concordo com tal comportamento, pra qualquer cidadão com cabeça no lugar se trata de insanidade enxergar cenário de batalhas onde deveriam conviver emoção e alegria. Mas conseguiram distorcer tanto a finalidade de ir ao campo que, infelizmente, desmiolados agem como pracinhas enviados para a guerra.

Daí não se pode esperar, de fato, que o sujeito bote a camisa do time, curta um guaraná ou um cachorro-quente, coma um pernil na esquina e desfrute do domingo para um passeio no litoral. Então, em vez de vermos carreatas descendo a serra, com bonés, buzinas, bandeiras, notamos ônibus de uniformizadas como se fossem comboios militares escoltados por batedores para evitar confrontos antes do tempo.

Meu amigo, endoidecemos!

Quem é melhor? 1. Torço por tempo quente pra valer, e disputas vibrantes, no gramado da Vila. Santos e Palmeiras apresentaram até agora futebol que foge ao lugar-comum do Paulista. Não são equipes brilhantes. No entanto, compensam com equilíbrio entre defesa e ataque (sobretudo no caso da turma de Gilson Kleina) e velocidade, ousadia e gols, no que se refere ao grupo de Osvaldo de Oliveira. O Santos tem um ataque arrasador, com 37 gols, disparado na frente.

Kleina aos poucos molda o meio-campo, com França, Bruno César e Valdivia atuando mais juntos. Osvaldo conta com o entrosamento crescente de Cícero, Gabriel, Geuvânio, Thiago Ribeiro, Leandro Damião. E faz mistério em torno de Arouca.

Sempre se pode esperar joguinho bacana entre esses dois fidalgos adversários. A história os respalda. Agora, o Santos (33 pontos) e Palmeiras (35) decidem quem leva vantagem para as próximas fases.

Quem é melhor? 2. Os espanhóis se regalam hoje com outro Real x Barcelona, clássico mundial de primeiríssima grandeza. Vitória do Real joga o Barça na lona na corrida pelo título doméstico. E o duelo esperado, pra variar, fica entre Cristiano Ronaldo e Messi. O português está em esplêndida fase, joga demais. Mas, caramba, quem me cativa é o argentino. Esse moço tem fascínio que não se explica,mas se sente.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, domingo, 23/3/2014.)

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