Heróis de cada época*

Antero Greco

18 de fevereiro de 2011 | 14h14

Ronaldo sai de cena, mas continua a ser o prato cheio da semana. A aposentadoria do astro rende artigos, comentários e apaixonadas discussões nos fóruns de debate na internet. Um dos temas mais polêmicos gira em torno da grandeza do ídolo. Não são poucos os que o consideram o maior jogador de todos os tempos, assim como há os que não o veem em pedestal semelhante ao de Pelé, Maradona, Zico, Garrincha e outros de altíssimo quilate. Os nomes dos deuses da bola em geral variam de acordo com a faixa etária do palpiteiro.

Diferenças de geração – aí reside o centro da questão, eis o caminho para tornar a conversa mais lógica e menos emocional, se é que se pode ser racional em papo boleiro. A tendência natural é a de que cada pessoa supervalorize os mitos de sua infância e juventude, em qualquer atividade – sobretudo nas mais populares, como a música e o esporte.

Por isso, os heróis do meu tempo são superiores aos das épocas dos outros. As proezas deles são mais espetaculares e insuperáveis. O meu craque tem mais fibra e caráter do aquele que o meu pai curtia ou desses que os meus filhos acompanham. O time do meu coração só era espetacular nos meus dias de garoto. E assim por diante. Tendemos a achar que o mundo começou conosco.

Essa postura se acentua no futebol, o que leva a intermináveis e divertidos debates como o destes dias. Não resolvem a vida de ninguém, mas inflamam, são exercícios de retórica e desenferrujam cérebros. Ficam chatos apenas quando topamos com obcecados, com fãs extremados, tipos que imaginam o ídolo como sua propriedade. Desses, como já escrevi, recomendo distância salutar.

Ronaldo, afinal, entra no panteon dos craques especiais? Pra mim, sim, embora jamais o tenha endeusado. Foi dos grandes atacantes que vi em ação, independentemente de época e estilo. Vou associá-lo sempre a nomes como Romário, Careca, Coutinho, Vavá, Leônidas da Silva, para ficar em craques domésticos.

Epa, mas eis que desponta aqui a influência da geração! Leônidas vi por um filminho ou outro perdido por aí, fora as coleções de revistas e jornais ou de relatos de velhos torcedores e companheiros de imprensa. Vavá e Coutinho estão gravados na minha memória de menino, ninguém me contou nada sobre eles, eu os vi em ação. Careca e Romário acompanhei sobretudo como profissional.

Todos foram importantes em seu devido tempo, mas hoje ocupariam espaço diferente numa hipotética lista dos melhores de sempre. Leônidas, Coutinho e Vavá podem ser considerados ídolos de calibre local e datado. Careca tem admiradores aqui e na Itália, mais especificamente no Napoli, onde marcou época. Mas fama também limitada.

Romário tem amplitude maior do que os anteriores (eu o considero o mais mortal dos goleadores), mas nem ele apresenta o alcance de Ronaldo. O Fenômeno é um dos primeiros astros do futebol globalizado, da era da informação instantânea, da internet, das tevês a cabo, do Youtube, do Twitter, do Facebook. Seus prodígios correram mundo com mais intensidade e velocidade do que foras de série que o precederam. A imagem dele foi mais vista; o marketing, fundamental aliado de seu talento.

Terá vida longa como mito, mesmo nos tempos em que superstars são fabricados a todo instante, pois a indústria do entretenimento em que se transformou o futebol precisa alimentar-se de novidades. A fila anda, o dinheiro corre e o esporte tem necessidade de associar-se à juventude, ao vigor físico. Ainda assim, salvo engano, Ronaldo resistirá. Merecido.

Ok. Mas alguém pode me explicar por que as décadas se sucedem, despontam tantos semideuses e um tal de Pelé mantém intacta a majestade?

A conta, por favor. O Comitê Organizador da Copa-14 está preocupado com atraso na construção do estádio do Corinthians. Para as obras serem concluídas em tempo serão necessários recursos adicionais. Eles virão, você sabe de onde. E sabe também quem vai pagar a conta. CPF na nota?

*(Minha coluna publicada no Estado de hoje, dia 18/2/2011)

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