Hora de balanço*

Antero Greco

23 de agosto de 2013 | 12h25

Depois de dois anos e meio de maré mansa, o Corinthians volta a sentir como avaliações no futebol são dinâmicas e volúveis, como quase tudo na vida. O time que conquistou o Brasileiro em 2011, a Libertadores e o Mundial em 2012, o Paulista e a Recopa em 2013 tem a capacidade colocada em xeque por apresentações instáveis na temporada, que culminaram com a derrota de anteontem para o Luverdense pela Copa do Brasil. Teme-se que todo-poderoso esquadrão embique para a estrada da perdição, e por ela arraste seus milhões de seguidores e o técnico Tite.

O 1 a 0 em Lucas de Rio Verde já entrou para a relação dos resultados imprevistos, atordoantes, exóticos até, que os alvinegros colecionaram em mais de 100 anos de história. Tropeçar diante de adversário neófito (fundado em 2004), sem tradição e que disputa a Terceira Divisão nacional incomoda e vira motivo de preocupação interna e de piadas externas.

A turma da gozação imediata já apelidou a agremiação mato-grossense de “Toliverdense”, em referência ao colombiano Tolima, que eliminou o Corinthians na fase preliminar da Libertadores de 2011. Chato ouvir isso, mas faz parte do mundo da bola. Tirar onda de rivais é um dos segredos do fascínio do esporte – politicamente correta ou não, o que importa é se divertir.

Valem as brincadeiras, assim como se devem considerar as críticas. A sabedoria está na forma como avaliá-las. As primeiras ficam na conta do folclore; passam num instante. As outras merecem reflexão, para delas tirar ensinamentos, corrigir rota e tocar pra frente. Ignorar erros desemboca em desastres.

Até prova contrária, o Corinthians não acabou na derrapada diante do Luverdense, aplicado, tinhoso, vibrante e limitado. Não se rompeu o encanto com o gol irregular marcado por Misael poucos minutos antes do final do jogo. Não vai para o lixo o trabalho de Tite por causa da expulsão de Romarinho e Emerson. (Entendo que o árbitro Pablo Alves exagerou nos cartões, incluído o vermelho para Zé Roberto.)

O resultado negativo foi elevado à categoria de “vexame histórico” – se bem que hoje em dia tudo é histórico. Embaraçoso, de fato, porém reversível. Constrangedor será se, na semana que vem, o Corinthians não anular a desvantagem no Pacaembu e sair do torneio. Nem por isso, o mundo desaba. O Palmeiras viveu situação semelhante contra ASA e Ipatinga, e tem dois títulos em sua coleção. O Internacional amargou desclassificação diante do Remo, o Botafogo perdeu final para o Juventude, o Grêmio caiu em duelo com o Criciúma, o Flamengo viu o Santo André dar a volta olímpica, o Fluminense se rendeu ao Paulista.

Não se trata de aliviar, mas de medir a dimensão adequada para a fase que atravessa. A regularidade e a eficiência não são as mesmas do ano passado. O esquema baseado em defesa sólida e ataque econômico deu frutos saborosos, ainda que o Corinthians seja avarento em espetáculos. Raros os episódios em que o desempenho seja o equivalente a um recital. É um padrão, e por ele treinador e elenco trilharam com sucesso. No Brasileiro de 2013, está em quarto lugar.

Mesmo com números favoráveis, chegou a hora de reavaliar métodos e peças, pois são evidentes os sinais de desgaste. Tite não deve se debruçar numa fórmula, apenas, e dela não abrir mão; a permanência no topo passa por novas estratégias, e isso implica criatividade e comprometimento geral. Há jogadores que têm rendido menos do esperado, por razões pessoais e técnicas. A equipe sofre com a saída de Paulinho, um dos pilares de sustentação; Romarinho anda desatento e Emerson, nervoso. Pato é uma incógnita e Ibson, instável. Guilherme se machucou; e por aí vai… Há muito o que mexer.

O Corinthians provoca dúvida pela sensação de acomodamento e presunção. As glórias parecem ter anestesiado o grupo. Está na hora de voltar a surpreender – e a chacoalhada de quarta-feira pode fazer bem ao time e a Tite. Ou desandar de vez.

*(Minha crônica no Estado de hoje,  sexta-feira, 23/8/2013.)

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