Hora de maturidade*

Antero Greco

20 de setembro de 2013 | 17h23

O corintiano anda aborrecido com tropeços no Brasileiro. Não é agradável ver o time marcar passo e perder quatro dos cinco últimos jogos disputados – com um empate, entre eles, só pra consolar. Se isso for consolo… Crise, desgaste, fim de ciclo são palavras que andavam fora de moda no clube e foram reincorporadas à rotina. Não faltam reclamações e exigências para que ocorram mudanças radicais, especialmente no comando técnico.

Entendo o torcedor comum, e não se pode pedir ponderação de quem se alimenta de paixão. Fanatismo destoa de racionalidade e no futebol é gastar saliva na tentativa de convencer alguém a mudar de ideia. Se o sujeito bota na cabeça que tudo vai mal, melhor deixar o tempo correr.

O Corinthians não é a porcaria deslavada como muitos têm apregoado – muitos “fiéis”, ressalte-se, dentre eles as organizadas, que têm acesso aos treinos para cobrar dos boleiros… Nem Tite enganador ou incompetente que deu sorte no Parque São Jorge. Não foi por acaso que a equipe ganhou Paulista, Copa do Brasil, Brasileiro, Libertadores, Mundial e Recopa em espaço tão curto. Os títulos não caíram do céu, nem foram comprados, conforme constaram análises baseadas em dor de cotovelo.

As taças recentes a enriquecer o acervo centenário chegaram por méritos – de jogadores, treinador e auxiliares. Tite deu continuidade a bom trabalho iniciado por Mano Menezes, mas colocou a marca própria e consolidou esquema de jogo, baseado em equilíbrio e eficiência entre os setores. Acrescente-se a isso pitada de qualidade dos atletas, o que resultou numa das versões mais vencedoras da história do Corinthians. De dar inveja mesmo.

Atingiu-se o topo, a autoestima alvinegra com justiça ficou deste tamanho e diminuíram as gozações. No embalo da euforia, imaginou-se que o todo-poderoso Timão ficaria para sempre no auge. A regularidade com que chegou a finais passou a impressão de que venceria qualquer competição de que participasse. O resto não seria nada além de resto, coadjuvantes da glória eterna.

Não é assim. Nada na vida dura para sempre. No esporte, há ciclos, que seguem seus respectivos ritmos. O Corinthians já esteve em baixa, subiu, desceu de novo, para tornar a levantar voo. Um vaivém constante. Importa saber aproveitar a maré cheia e preparar-se para os períodos de transição. Chato, sintoma de decadência, é afundar e não vir à tona. Fases de turbulência são normais e inevitáveis, apesar de frustrantes.

O Corinthians deu saltos significativos em direção à modernidade. Com erros e exageros aqui e ali, mudou muito a gestão do futebol dele, ousou no marketing, adiantou-se à concorrência. E mostrou serenidade impensável, no início de 2011, ao manter a aposta em Tite na eliminação da Libertadores para o Tolima, naquela etapa preliminar. Ali começou a ganhar títulos.

Tite e elenco vivem dias conturbados, em que quase nada dá certo. Todos, com anuência da diretoria, têm culpa. Não há um vilão. Daí a tornar tudo terra arrasada como solução para a retomada do caminho brilhante é precipitação, mesmice. O campeão do mundo não virou sucata.

Fato que pilares como Alessandro, Danilo, Emerson, Paulo André, Guerrero não mantiveram regularidade. A saída de Paulinho foi uma tijolada na estrutura (embora prevista), a dispensa de Jorge Henrique pesou (se bem que a cartolagem alega motivos sérios). Pato também não se transformou no ídolo que se esperava. Ibson e Maldonado foram investimentos equivocados.

Há o que mexer, é evidente. Mas o coerente será com Tite no comando. Mas, se até ele acha que três anos bastam para cumprir um ciclo, aí se percebe como é difícil mudar mentalidade e apostar em longo prazo…

Mano fora. A comprovação da falta de projetos sérios veio ontem com o pedido de demissão de Mano, depois dos 4 a 2 do Atlético-PR sobre o Fla. Ele mal esquentou banco, como Autuori no São Paulo, e não resistiu a resultados ruins. Amadorismo.

*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, dia 20/9/2013.)

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