Internacional, vítima de um velho pecado no futebol: a presunção

Antero Greco

14 de dezembro de 2010 | 20h20

O sonho do bicampeonato mundial morreu para o Internacional, no início da noite, em Abu Dabi, em consequência de um mal recorrente no futebol: a presunção. O time brasileiro tecnicamente era melhor do que seu rival Mazembe, o quase desconhecido representante da África, criou mais oportunidades e teve sempre a certeza da vitória. Até levar o primeiro gol. Então, se descontrolou, abriu-se, deu espaço para o contra-ataque e para os 2 a 0 finais.

A responsabilidade de desempenhar papel bonito era do Inter, que entrou em campo com a obrigação de honrar o peso de sua história. Elenco mais badalado, campeão sul-americano, uma vez também campeão do mundo. Tudo a favor dos gaúchos – na teoria. Na prática o favoritismo quase se tornou realidade já aos 10 minutos do primeiro tempo, num chute de Alecsandro que Kidiaba defendeu. O toque de bola também tinha mais qualidade.

Esses indícios de superioridade relaxaram o Inter e foram fundamentais para despachá-lo para a vala das equipes comuns. Guiñazu e sua turma jogaram a etapa inicial com a certeza de que a vitória seria questão de tempo. Minuto a mais, minuto a menos e os africanos seriam devolvidos para o esquecimento de onde vieram. Não havia motivo para apreensão para os milhares de torcedores colorados que se mandaram para o Oriente Médio para fazer festa. O maldito pecado mortal que costuma derrubar gigantes.

A alegria, porém, foi da zebra, que se desgarrou com o gol de Kabangu aos 11 minutos da segunda fase e atropelou o Inter com Kaluyituka aos 40 minutos. Dois gols bonitos, que contaram também com vacilos oceânicos do sistema defensivo brazuca. De quebra, o endiabrado Kidiaba fez mais duas proezas e ainda divertiu a plateia com sua dancinha solitária, sentado e aos saltinhos.

Celso Roth havia dito na véspera do jogo que o Mazembe deveria justificar a segurança de seu treinador, o senegalês Lamine N’Daye, que prometia nova surpresa, depois de derrubar os mexicanos do Pachuca. Pois os africanos, franco-atiradores, não se intimidaram, jogaram sua bola simples e entusiasmada e colocaram o continente pela primeira vez na história na rota de um título mundial. E Roth se enrolou nas substituições, porque não adiantou tirar jogadores experientes como Tinga, Alecsandro e Rafael Sobis. As mudanças reforçaram o fiasco.

Fica a lição para Rafael Benitez, técnico da Internazionale que esteve no estádio. Se sua equipe, que não anda bem das pernas, passar hoje pelo teste com o Seongnam, da Coreia, que se cuide: esse pessoal do Congo gostou de fazer estragos.

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