Jogador é gente*

Antero Greco

16 de outubro de 2011 | 09h27

A gente costuma tratar jogadores de futebol sem meios-termos: ou os vemos como super-homens, versão moderna dos deuses do Olimpo, ou os encaramos como garotos mimados que demoram a crescer e só vivem no bem-bom. Evidente que há profissionais extraordinários, com talento muito acima da média e com salários idem. Com vida de fazer inveja. Da mesma forma, existem os filhinhos de mamãe, cheios de não me toques, que se acham o máximo e depois de algum brilhareco se perdem na vida, se transformam em vaga memória.

 Prefiro enxergá-los apenas e adequadamente como seres humanos, com qualidades e defeitos – tanto os craques quanto os pernas de pau. Uns e outros com direito a episódios de glória e de frustração. Como qualquer um de nós – eu, você, o Chico Barrigudo. Dessa forma, poderemos compreender suas oscilações de maneira mais sensata. Até onde isso for possível, quando se trata de futebol.

 Durante a semana, vários desses rapazes viveram momentos conturbados e nem todos se saíram bem. O que acho ótimo – assim ganham dimensão real. Alegria e superação, por exemplo, sobraram para El Loco Abreu e Fred. Ambos estiveram empenhados em jogos de suas respectivas seleções, meteram-se em viagens malucas e voltaram para o Brasil esbaforidos para atender compromissos de seus times. Correram pra cá e pra lá e no final valeu a pena esfalfar-se. O uruguaio Abreu foi decisivo nos 2 a 0 do Botafogo contra o Corinthians (fez um gol) e o mineiro Fred roubou a cena, com os gols do Flu nos 3 a 1 diante do Coritiba (e ainda perdeu pênalti).

 Bonito. Proezas que vão virar lendas, que marcam as carreiras e que os fizeram cair nos braços da torcida. Mas não é assim pra todo mundo. Neymar, Kleber, João Vítor amargaram dissabores que a rotina de pessoas públicas também apronta. O trio passou por maus bocados, dentro e fora de campo.

 Começo por João Vítor, o peixinho miúdo dessa trinca. Ele tem 23 anos, carreira curta, com passagem em times modestos como Marília e Grêmio Prudente, e pouco tempo de Palmeiras. O prosaico programa de comprar camisas na lojinha do clube, antes de um treino, virou pancadaria, por causa de um fanático que o xingou, e só não acabou em massacre porque a polícia interveio.

 O incidente enveredou por caminho no mínimo distorcido e se passou a discutir se não teria sido ele (e dois acompanhantes) a iniciar a confusão. Os 15 que estavam no boteco e partiram pra cima agiram somente com instinto de solidariedade com um companheiro que apanhava. Espera aí, tem algo errado nessa história. Violência revolta e fica difícil tomá-la com naturalidade. Não acho que João Vítor tenha de dar nem receber pancada. Nem ele nem ninguém. Mas que direito tem um torcedor de enchouriçar a vida do moço, de insultá-lo, de provocá-lo? Talvez João Vítor devesse se fingir de surdo, teria sido mais prudente. Só que nem sempre se consegue manter o sangue frio. Condená-lo por isso, ou ficar em cima do muro como fez o Palmeiras, é deprimente.

 O quiproquó respingou no Kléber. O atacante resolveu tomar as dores do companheiro e ensaiou um levante, ao sugerir que o grupo não jogasse contra o Flamengo na quarta-feira. Nervosismo, bate-boca com Felipão e eis que se vê contemplado com afastamento. Pode ser que Kléber tenha se excedido e se julgou no direito de falar o que quisesse. Afinal, três meses atrás cantou de galo, disse o que bem entendeu e a diretoria se calou. Tivesse havido uma conversa serena e profissional, naquela ocasião, e provavelmente agora ele não agiria dessa forma.

 Neymar é caso clássico do prodígio que paga pela fama rápida. Neste ano disputou Sul-americano Sub-20, Paulista, Libertadores, Brasileiro, Copa América e amistosos da seleção. Esteve no centro de queda de braço entre Santos, Barça, Real Madrid. No meio-tempo, faz um montão de comerciais, apanha mais que boi ladrão e decide jogos. Chega uma hora em que se cansa, reclama, leva amarelo depois do enésimo chute, aplaude juiz com ironia e é expulso. É demais! Só falta aparecer um puritano e advertir que se está a “criar um monstro”, como naquela trombada com Dorival Júnior.

 O choro de Neymar, após o jogo com o Atlético-MG, é prova de que por trás do popstar bem pago e badalado, existe um homem e não uma máquina de jogar bola ou fazer dinheiro. E homem que é homem chora.

 *(Texto da minha coluna publicada no Estado de hoje, dia 16/10/2011.)

 

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