Judas natalino*

Antero Greco

21 de dezembro de 2011 | 11h50

A folhinha segue o curso normal do tempo e indica que estamos na época de Natal, com espírito de confraternização a pairar por aí. Mas parece Semana Santa, ou melhor, sábado de Aleluia. Desde domingo, o que não falta é malhação de Judas – no caso o Santos. Mais especificamente Muricy Ramalho e Neymar. Ambos viraram alvos preferidos da ira popular pela roda de bobinho em Yokohama que terminou com… não preciso repetir o placar; você sabe quanto foi.

 O Barcelona humilhou o Santos de tal forma que é compreensível, justo e natural que o torcedor solte o verbo, distribua rabos de arraia para compensar a frustração. No calor da hora, mal terminada a sessão de tortura esportiva imposta por Messi e seus acólitos, desceram os impropérios. Fizeram bem à saúde.

Descontadas as reações imediatas de decepção de santistas e simpatizantes, sobraram as gozações – muitas, previsíveis e necessárias. Saudáveis também, porque o futebol vive de rivalidade. Mas houve exageros. Sem falso moralismo, chocaram xingamentos dirigidos sobretudo a Neymar. (Para Muricy foram os tradicionais que todo treinador ouve.) Analfabeto, mal-educado, amarelão, grosso, presunçoso, mascarado, ridículo são as definições mais leves e publicáveis que se esparramaram pelos fóruns de debates nas tais mídias sociais.

Os desabafos ensinam. No caso do Neymar revelam quanto há de inveja, ciúme e olho gordo à solta. Não se faz crítica ao desempenho, sob o ponto de vista esportivo, tático. Ou mesmo psicológico, se me permitem esta observação de botequim. A lavada santista serviu para muita gente constatar que o jovem astro não passa de fraude, mentira. Houve quem tenha detectado esquema da imprensa ao exaltar Neymar, para obter audiência ou para satisfazer a jogo de interesses de clube e empresários…

Uma partida desastrosa do Santos e está decretada a falência da carreira de Neymar! Não tem lógica esse tipo de sentença. Pensando bem, até faz sentido, pois o sucesso incomoda. Pode reparar em seu emprego, por exemplo: basta alguém se destacar ou receber promoção para ser alvo de maledicência. Subiu porque é puxa-saco, está no esquema da chefia, é patronal. Raramente se diz que evoluiu por méritos. Medimos nossas desilusões pelo brilho alheio. Para amenizá-las, o remédio é torcer contra o outro. A vida tem atitudes pequenas.

Neymar não é Messi, como Maradona não foi Pelé (e ambos são gigantes da bola até hoje). Claro que há excessos na avaliação positiva do moço. Porém, são admissíveis. Em primeiro lugar, porque ele é bom de bola. (Você que não é santista não queria Neymar em seu time?) Em segundo, porque o futebol precisa de hipérboles. O futebol tem espaço para emoção! A emoção que afaga e a que espinafra. Mas emoção, apenas, não a maldade, o desejo de ruína.

Há três dias, também, noto clamor pelo “retorno às origens” do futebol brasileiro. O que seria isso? O resgate do drible, do toque de bola, do jogo vistoso. A redescoberta do valor do craque. Assino embaixo tudo isso. Ao mesmo tempo, a grande contradição, e sempre com o foco em Neymar: ele só crescerá se for para a Europa… E tome o círculo vicioso em funcionamento: queremos que nosso futebol evolua, mas sugerimos que nossas joias continuem a ser lapidadas pelos europeus e não em casa. Essa fica para pensar no Natal…

Foram 170 crônicas em 2011, que tiveram como pretensioso fio condutor o louvor à vida, à alegria, à alma leve. Uma pausa e até a volta, em 15 de janeiro. Que o Menino nos guie.

*(Minha crônica, a última do ano, no Estado de hoje, dia 21/12/11.)

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