*Juventude apressada

Antero Greco

24 de agosto de 2011 | 15h31

Alguns rapazes que conquistaram para o Brasil o pentacampeonato mundial Sub-20 voltaram para casa com discurso ousado. A medalha de ouro fez com que se sentissem prontos para pleitear vaga no time principal de seus respectivos clubes. Houve quem levasse a empolgação a patamar mais alto de pretensões, a ponto de ameaçar ir embora, se logo não tivesse chances na formação profissional. Caso, para citar um exemplo, de Henrique, do São Paulo, eleito pela Fifa o melhor da competição na Colômbia.

Grandes proezas nos enchem de energia e confiança. É muito bom sentir-se capaz, eficiente, vencedor. Ganhar concurso de par ou ímpar ou de palitinho faz qualquer um se achar poderoso. Autoestima em alta afaga o corpo e a mente. Provavelmente assim se veem esses meninos que cumpriram papel bonito e confirmaram a excelência da escola brasileira de futebol. Merecem valorização, mas sem forçar a barra.

Sei que pressa e arrogância são traços da juventude. Quando se é jovem, há necessidade de se alcançar objetivos com rapidez. Acelerar, saltar, pular etapas parecem atos vitais e inadiáveis. Sem eles, fica a sensação de incompletude. Obstáculos devem ser removidos a qualquer custo. A vida tem urgência, exige adrenalina. A impaciência aumenta, se o moço exerce atividade que lhe dá exposição.

Futebol é um desses meios de projeção. Sem contar que se trata de negócio em expansão e no qual se fala de milhões como se fossem cafezinho tomado no balcão do bar. A perspectiva de ganhar muito, e rápido, estimula os candidatos a astro desde os primeiros chutes na bola. Tão logo surgem oportunidades de aparecer para o público, o atleta nota o fascínio sobre as pessoas comuns, anônimas, que tocam sua vidinha opaca. Imagino como ficam se, por volta dos 20 anos, já são campeões do mundo.

Não condeno a inquietude de Henrique, Casemiro e outros que regressaram em ritmo acelerado dessa expedição triunfante. É necessário entendê-los, em vez de classificá-los como presunçosos. Neste momento, deve prevalecer a serenidade, mais de dirigentes e empresários do que dos próprios rapazes. Estes se comportam em concordância com a pouca idade que têm.

Importante olhá-los com profissionalismo e respeito. E com simpatia. Ora, por que não? Não se deve frear o embalo de quem está cheio de gás e vontade, ao mesmo tempo em que é imprescindível mostrar-lhe que há etapas a superar. Basta convencê-los de que há plano de carreira a espera deles. Sem crises.

Fico cismado quando há pressão danada para um clube aproveitar determinado jogador, por se tratar de promessa, diamante em estado bruto ou coisas do gênero. Ou porque os gringos estão de olho. Fora as exceções – taí o Neymar –, a maioria pode seguir o curso natural das coisas sem nenhum prejuízo.

Encurtar às vezes pode embaçar a carreira. Lembram do Lulinha? Marcava enxurradas de gols nas categorias de base do Corinthians, despontava como novo Fenômeno. O procurador tanto fez, tanto insistiu, tanto vociferou que, com menos de 18 anos, passou para o time de cima. Os gols minguaram, a responsabilidade pesou e ele começou a perambular por aqui e por ali. Agora, tenta recomeçar no Bahia. Algo semelhante ocorreu com Kerlon Foquinha (sumiu?) e até com Keirrison.

Outro aspecto a ser levado em conta é a oscilação. Com 18, 19 anos, não dá para cravar que todos esses pós-adolescentes, mesmo campeões, vão vingar como boleiros. Ocorre justamente o contrário. Poucos passam no funil e a maioria se torna operários da bola. Mas, com a voracidade com que o mercado internacional fareja novos Messis e Ronaldos, há conflito: procuradores e atletas receiam perder o trem da prosperidade, que pode não passar uma segunda vez. Os clubes temem a fuga de uma eventual galinha de ovos de ouro. Por isso, o melhor caminho é negociar com transparência e bom senso.

*(Texto da minha crônica no Estado de hoje, dia 24/8/2011)

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