Legado da Copa*

Antero Greco

16 de maio de 2014 | 12h14

Você ainda aguenta a ladainha a respeito do “legado da Copa”? Faz pelo menos uns cinco anos que a música se repete, sempre no mesmo tom: para autoridades envolvidas na organização e para esportistas, o Brasil dará um salto de qualidade como jamais se viu em 514 anos de história. Parece o fato mais importante desde que Cabral e marujos desembarcaram por aqui, na moita, com a desculpa da falta de ventos, e assim tomaram posse da terra antes dos espanhóis. Para quem é contra, o torneio serve como outra demonstração de farra do boi com dinheiro público. Um desperdício maior do que o da água.

Pois não acho nem uma coisa nem outra. O país não ficará nem pior nem melhor por causa do festival da bola que começará logo mais. Ou, para não parecer que me acomodei no muro da neutralidade, vejo avanços com o surgimento de alguns estádios novos ou remodelados, que podem atrair público, se forem administrados com inteligência e bom senso. São espaços bacanas para quem curte ver jogos no local. E receio que haverá prejuízos com… estádios novos, erguidos por interesses políticos, por megalomania ou sabe-se lá por quais motivos extras. Alguns nasceram com a vocação para sucata (caras) em pouco tempo. Aguardemos.

A Copa tem sido usada como instrumento político, e aí se quebra a cara, tanto os que são a favor como a banda do contra. O governo calculou, lá por 2000 e tanto, que seria jogada de mestre trazer o evento para cá. A economia planava em céu de brigadeiro, o real ficou robustecido, a seleção curtia o pentacampeonato. Éramos, enfim, a bola da vez no contexto internacional. Bela ocasião de divulgar esse gigante desperto. (Dá calafrios, porque me remete ao “Brasil grande” dos anos 1970.)

Na época em que a Fifa bateu o martelo e disse – “Taí, é com vocês, parabéns e se virem!” -, raros chiaram; a maioria vibrou como se tivéssemos garantido o hexa por antecipação. Quem ousou alertar, na base do “Gente, cuidado com isso, veja quem vai tocar o projeto, olha quanto vai custar a brincadeira”, atuava como antipatriota.

Por baixo do entusiasmo, dormiu o gérmen da desconfiança. E o danadinho cresceu, pois aos poucos as pessoas ficaram com pé atrás, ao se tocar que uma turma brava guiava o negócio, e negócio bilionário. Turma encabeçada por… bom, deixa pra lá, você sabe.

Eis o vacilo oficial. O governo demorou a perceber que atrelava imagem a gente com rejeição popular – merecida, ressalte-se. Quando notou a mancada, era tarde, o estrago vagava no ar. A presidência tratou de virar o jogo, ao trocar o ministro do Esporte e ao forçar o ex da CBF a sair do barco. Movimento fraco, porque na sequência engoliu o substituto dele com o fiel escudeiro e agora sucessor a tiracolo. Mudou seis por meia dúzia. Azarou-se porque quis.

Naquela altura do campeonato, obras atrasavam, os custos aumentavam, a presença do Estado foi inevitável para não empacar tudo de vez – e o ex da CBF prometera “a Copa da iniciativa privada”… Um festival de besteiras, para citar o genial Stanislaw Ponte Preta. Daí foi um passo para o povo associar Copa com corrupção, descaso com problemas maiores, como saúde, educação, transporte, segurança. Não houve mais jeito de o governo convencer o eleitorado de que o Mundial é legal – e, de fato, não deixa de ser propaganda fina. A receita desandou.

Quem torce o nariz pra Copa entrou de sola e veio com o discurso de que a gastança nessa aventura supérflua é responsável por males da atualidade. Conversa que só frutifica porque o governo comete monte de barbeiragem. Temos carências em tudo, com ou sem Mundial. Dinheiro nosso vai para o ralo todos os dias, há tempos imemoriais, em quantidades maiores do que para os estádios, em manobras pouco compreensíveis para a gente comum (me incluo nessa). Meter bronca na Copa é mais digerível para a massa.

Resumo da conversa, porque o espaço acaba: o Brasil emperra e anda independentemente de Copa e Fifa.

*(Minha coluna publicada no Estado de hoje, sexta-feira, dia 16/5/2014.)

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