Libertem a alegria!*

Antero Greco

08 de abril de 2013 | 12h21

Leandro, do Palmeiras, e Luan, do Atlético-MG, têm algumas particularidades em comum. Ambos são jovens promessas do futebol brasileiro, marcaram gols importantes pelas respectivas equipes no domingo, festejaram o momento de alegria intensa e… levaram cartões amarelos. Em ambos os casos, por “conduta antidesportiva”, seja lá o que isso for.

Essa atitude vaga, de larga interpretação e contornos pouco precisos, permite às Suas Senhorias dos gramados advertir os atletas, se considerarem que exageraram na euforia. E, claro, com devido respaldo de seus superiores e da casta especial de analistas de arbitragem, composta de ex-colegas que em geral comungam dos mesmos critérios.

As faltas dos moços? Leandro, 19 anos, fez o gol da vitória palestrina por 2 a 1 sobre a Ponte, resultado que derrubou longa invencibilidade da brava adversária, até então insuperável no Campeonato Paulista. Assim que mandou a bola para as redes, colocou a mão no ouvido direito, como se dissesse para o público: “E agora, ninguém vai dizer nada?” Gesto quase tão antigo quanto o esporte, repetido por tantas gerações de boleiros.

Céus! Isso configura afronta e pode incitar à violência, na avaliação de quem faz as regras do jogo. O profissional não tem direito de comportar-se de maneira tão indigna! Então, os zelosos juízes não vacilam em mostrar-lhe, por meio daquele cartãozinho, o quanto desaprovam a indelicadeza. Foi o que fez Luís Vanderlei Martinucho, todo garboso. É para os saidinhos aprenderem que não se brinca com coisa séria como o futebol. Ora!

Reação semelhante teve Wanderson Alves de Souza, responsável pelo bom andamento dos trabalhos entre Atlético-MG e Boa, pelo Campeonato Mineiro. Luan, 22 anos, anotou golaço, o terceiro dos 4 a 0 finais e o segundo dele na partida, e ficou rodando, rodando, a imitar aviãozinho. Lembrou o técnico Zagallo lá por 1990 e tantos. Na interpretação do senhor do espetáculo, demorou muito para voltar ao meio do campo. Por isso, lascou-lhe a admoestação.

O curioso é que Luan levou algumas pancadas na partida e os agressores passaram incólumes. E ele mesmo, depois, também deu uma sapatada num marcador e o árbitro fechou os olhos. Se aplicasse outro amarelo, viria o vermelho de brinde. Como fica a critério do apitador definir o que vale ou não, vida que segue. Bater é do jogo; quebrar canelas, risco normal. Mas exaltar-se na hora do gol fere a moral e os bons costumes.

Coitado do César Maluco, que se pendurava nos alambrados nos anos 1970. Hoje, seria um pária. Coitado do Serginho Chulapa, do Romário, do Edmundo. Acho que até o Pelé iria se estrepar, porque socar o ar, após os gols, poderia soar ofensivo, agressivo…

Jogadores e formadores de opinião, quem tenha mínima influência, deveriam unir-se e fazer campanha para o basta à hipocrisia, à caretice e à cara de pau disseminadas no futebol. Punição para os brucutus, para técnicos que mandam bater, para dirigentes pilantras, para juízes desonestos, para arruaceiros de arquibancadas. E liberdade para a vibração intensa, exagerada na razão de existir o futebol: o gol. Gol sempre é farra, adrenalina, risos e lágrimas de alegria!

Verde renasce. Por falar em entusiasmo, o Palmeiras supera limitações com suor e raça. A moçada de Gilson Kleina não prima pela técnica, mas tem corrido mais do que equipes estreladas e encrencadas. Os 2 a 1 sobre a Ponte dão esperança de que pode avançar na Libertadores. Nesta semana, a decisão é com o Libertad.

*(Minha crônica no Estado de hoje, segunda-feira, dia 8/4/2013.)

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