Lições de uma surra*

Antero Greco

31 de janeiro de 2014 | 12h11

Surras doem! Independentemente da forma como se apresentem. Sejam aquelas antigas, de chinelo, que as mães lascavam em garotos arteiros. Sejam os puxões de orelhas da professora. Sejam os sopapos trocados na escola ou nas intensas peladas de rua. Sejam as carraspanas morais, profissionais, afetivas que nos pegam de surpresa e com a guarda baixa. Sejam as derrapadas de nossa equipe. Essas últimas grudam na memória e nos fazem querer sumir do mapa.

A lavada que o Corinthians tomou do Santos, anteontem, na Vila Belmiro, foi de lascar. Não é toda hora que um time grande leva de 5 a 1 em clássico. Por si só, o resultado deixaria qualquer um fora de prumo. Pior, se pode haver algo mais grave, foi o baile! Indesmentível que a rapaziada santista se divertiu. Mesmo sem intenção, deu olé no segundo tempo e não chegou a ampliar porque, em determinado momento, tirou o pé. E o árbitro encerrou a farra aos 45 minutos, sem um segundo sequer de acréscimo.

O desempenho do alvinegro – o paulistano – foi indefensável. Na primeira metade, ainda segurou a onda, ao ir para o intervalo com diferença de apenas 2 a 1. Mas, a partir do terceiro gol, logo após o reinício, a casa caiu. Os outros dois só serviram para aumentar o constrangimento geral, de um lado, e a euforia dos outros alvinegros.

Está bem que foi a quarta apresentação oficial de cada um na temporada. Muita coisa tem para acontecer, etc e tal, com a cautela necessária de sempre. Não se pode achar o Santos favorito ao título, nem que esteja pronto para saltos maiores. Assim como parece injusto decretar destino inglório para o Corinthians. Também seria rematada tolice achar que nada de mais se passou na tórrida noite na Baixada.

Ocorre que o Corinthians apanhou feio – e tem motivos suficientes, agora, para refletir a respeito do que pretende na vida. As topadas violentas podem provocar galos na cabeça (uns cinco, quem sabe?) e, ao mesmo tempo, ensinar a prevenir novos acidentes. Pelo visto, a roupa suja começou a ser lavada, com o silêncio de ontem no Parque São Jorge e com as reuniões longas e a portas fechadas. O tempo fechou.

Mano chegou recentemente, depois de passagem breve e traumatizante pelo Flamengo, e encontrou um Corinthians com autoestima baixa. A trajetória no Brasileiro de 2013 ficou aquém de projeção do mais pessimista, e sequer se imaginou que o elenco esgotasse o repertório depois de ganhar Libertadores e Mundial. Porém, foi o que se viu. Com a base vencedora de 2012, sob o comando do mesmo treinador (Tite), o time limitou-se ao papel de sombra de si próprio. O encanto sumiu, junto com o futebol equilibrado de vários titulares dos episódios épicos.

Mas Mano aceitou a proposta de guiar a moçada, com poucas caras novas e o desafio de resgatar heróis recentes que se ofuscaram de uma hora para outra. Coloquei essa interrogação aqui e, pelo visto, o mesmo sentimento chegou ao técnico e aos dirigentes. Não tem papo de caça às bruxas, tampouco pedir a cabeça de bodes expiatórios. Mas não chegou a hora de encarar a reformulação adiada em dezembro? Melhor fazer isso com o ano fresquinho do que apelar para a ignorância e o radicalismo se o caldo desandar lá na frente.

O jogo com o Santos escancarou a necessidade de mexidas em todos os setores. Trabalho para cartolas, nos investimentos, e para Mano, nos bastidores e dentro de campo. Ele não pode mostrar-se atordoado, como pareceu na Vila. Uma evidência foi a entrada de Pato quando restavam 15 minutos para o apito final.

O placar estava 4 a 1 para o Santos e o centroavante não mudaria nada no panorama vexatório. Sensato seria deixá-lo quieto, no banco, uma vez que não anda com moral com a torcida. Seria uma maneira de preservá-lo e passar-lhe segurança. Se fosse para mostrar serviço, que entrasse alguém para reforçar a marcação. Ok, escalar Pato foi um detalhe, num amontoado de erros. Mas é fundamental ganhar a confiança da tropa.

*(Minha crônica publicada no Estado de hoje, sexta-feira, 31/1/2014.)

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