Lucas e Neymar*

Antero Greco

12 de abril de 2013 | 12h01

Neymar incomoda. Ou melhor, o sucesso de Neymar por estas bandas provoca desconforto, para usar termo educado e da moda, embora inveja, ciúme, cobiça e até ingenuidade se adequassem à perfeição. À medida que o rapaz se mostra à vontade em casa, atrai maior número de fãs e fecha contratos milionários, cresce a corrente dos que desejam vê-lo fora do Brasil a todo custo. A alegação rotineira se volta para o desenvolvimento técnico e tático que a experiência europeia lhe proporcionaria, além de benefícios inestimáveis para a seleção, “que não pode fazer feio” na Copa de 2014.

A onda, até um tempo atrás, era compará-lo a Messi. Pelo visto, tanto os que o idolatram quanto os que torcem o nariz até para as variações de cortes e tonalidades de cabelo dele, resolveram deixá-la para trás, por ser descabida. O argentino atingiu estágio superior por pertencer a uma categoria, especial e limitadíssima, de superastros. Que talvez Neymar não venha a integrar, sei lá. Sei que tem talento de sobra, e isso deveria nos orgulhar e não nos inquietar.

A tendência agora é cotejá-lo com Lucas. Ambos têm praticamente a mesma idade, surgiram como estrelas nas respectivas equipes – Santos e São Paulo – e viveram trajetória semelhante, pelo menos nas seleções de base. Na principal, Neymar há muito é titular. Por esbanjarem qualidade, chamaram a atenção de estrangeiros, que até o momento conseguiram carregar apenas Lucas. O Paris Saint-Germain despejou um caminhão de dinheiro no Morumbi, para tê-lo como integrante de elenco milionário. Por aqui, a torcida tricolor ainda aguarda, com ansiedade, que os euros sejam revertidos para reforçar o time.

Lucas cava espaço no PSG, participou da aventura da eliminação na Copa dos Campeões, e isso basta para ressurgir o coro dos que sonham ver Neymar distante, sem se darem conta de como a aridez local aumentará após a saída. O argumento corriqueiro indica que, em breve, Lucas será maior que Neymar.

Mesmo? Tenho dúvidas. Lucas ganhará visibilidade, certamente, porque a turma da Europa trabalha com profissionalismo para vender suas competições. Nem sempre o peixe é tão bom quanto se apregoa. Mas, como aparece limpinho, com frescor e a preço razoável, tem aceitação no mercado. E passa a impressão de que é de primeira. Isso pode acontecer com Lucas, que nem precisa de tanta publicidade, ao contrário de muito gringo que deita e rola por lá.

Mas Neymar é melhor – e nisso não vai demérito nenhum para o ex-são-paulino. O ídolo santista dribla, ousa, inventa, finaliza, tem visão de jogo extraordinária. É goleador, garçom, e desenvolve também senso tático que só os dotados de inteligência esportiva refinada apresentam. Evolui, mesmo com as repetidas disputas contra rivais de menor expressão, no Paulista e na Copa do Brasil. Não está cabisbaixo.

Cada um a sua maneira, e no ritmo próprio, terá sucesso. Antes de acatarmos como sensato o canto das sereias que o empurram para o exílio, por que não exigimos profissionalismo e transparência dos dirigentes, por que não forçamos para que elaborem planos de carreira honestos para as revelações, por que não lutamos por campeonatos decentes e competitivos? Assim, com o tempo, será possível manter Neymar e outros craques, além de trazer gente de fora. Mas é mais fácil assumir o conformismo e achar que aqui nunca mudará.

Acomodação que permite que um símbolo nacional – o complexo do Maracanã – seja desfigurado e entregue de bandeja. Como tantos outros.

*(Minha crônica publicada em parte da edição do Estado de hoje, sexta-feira, 12/4/2013. Depois, foi atualizada.)

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