Malucos geniais*

Antero Greco

01 de julho de 2012 | 12h01

Era final de novembro de 1989, eu estava na Itália a preparar um guia para o Mundial do ano seguinte. Nas andanças pelo Bel Paese, em busca de informações úteis para os visitantes brasileiros, fui a um treino do Napoli, então o time da moda. Na época, Maradona era o rei de Nápoles, gastava a bola com fineza e garantia espetáculos com a camisa azul.

Por lá, todos sabiam também de suas estripulias fora de campo. Já levava rotina incompatível com padrões convencionais, cometia excessos a valer, e mesmo assim ninguém o repreendia. Companheiros de time nem se importavam com as extravagâncias do Pibe, os dirigentes não lhe cobravam cumprimento rígido de horários e torcedores não ligavam de vê-lo a zanzar pra cá e pra lá, em baladas sem matizes familiares.

Para Maradona, tudo era permitido, não existiam vetos. Por quê? Porque ele era diferente, incontrolável, incansável. Não se podia enquadrar um gênio e exigir que seguisse a rotina dos “comuns”. Os colegas admitiam abertamente que só desejavam vê-lo com astral alto: “Se ele aparecer para um jogo em cima da hora, mas feliz, é certeza de vitória, de prêmio no bolso…”

Maradona foi extraordinário, ímpar e pertenceu à categoria dos astros da bola do mais alto requinte. Nunca fizeram sentido observações conservadoras e puritanas que, tempos depois, brotaram de todos os cantos. Ele se estrepou, teve carreira truncada por dopings e suspensões, quase morreu. E ainda hoje destoa, com suas declarações contundentes. Nesse tempo, só os tifosi napolitanos jamais o condenaram; talvez por serem de uma cidade em que a transgressão faz parte do quotidiano…

Personagens como Maradona despertam reações extremadas – são adorados ou execrados. Para muitos, representam arte pura; para outros, não passam de marginais e maus exemplos. São anjos (mesmo tortos) ou demônios. De qualquer forma, não passam indiferentes pela vida, não se perdem no anonimato das multidões com a maioria.

Assim como são fundamentais os centrados, ponderados e bons moços, o futebol precisa dos temperamentos indomáveis, de quem rompa com o lugar-comum e muitas vezes fuja ao politicamente correto. Não é fácil aceitar um sujeito que não siga cartilhas, que ouse pensar por si, tem voz própria e não recita rosário de frases feitas. Esse tipo agride e choca o cidadão médio, ao mesmo tempo em que escancara hipocrisias que cultivamos no dia a dia. Muitos, na intimidade, sonhavam em ser Maradona…

Com frequência, se paga preço alto pela opção radical. Nem todos têm estrutura, ou mesmo bola, para segurar os trancos da vida e quebram a cara. É um risco. Mas, pense como seria a história do futebol, se não tivessem existido Heleno de Freitas, Almir Pernambuquinho, Garrincha, Dener, George Best e tantos outros com perfil de outsiders? E não só estrelas com final trágico. Dadá Maravilha, César Maluco, Romário, Edmundo, Edilson, Renato Gaúcho, para citar meia dúzia de exemplos vivos, não se encaixaram em papéis bem comportados. Alguns intempestivos e bocudos, outros debochados e temperamentais, agitaram, irritaram, aprontaram. Divertiram.

O domingo pode consagrar Mário Balotelli como mais um integrante dessa trupe em eterna renovação. Destaque da Euro-12, foi fundamental para levar a Itália à final, com dribles, gols e pose de mau. Tomara que tire coelhos da cartola e surpreenda diante da bem ordenada trupe espanhola. O torcedor curte encanto.

*(Minha crônica no Estado de hoje, dia 1/7/2012.)