Mudança de hábitos*

Antero Greco

08 de fevereiro de 2013 | 12h01

Luiz Felipe Scolari é profissional privilegiado. A função que atualmente exerce lhe concede tempo para observar, analisar, avaliar e escolher o que é melhor para alcançar objetivos. Como técnico da seleção, sobram-lhe oportunidades de ver em ação toda espécie de equipes – das excelentes às desastrosas -, e delas extrair o que for útil para o Brasil em sua caminhada para a Copa de 2014.

Um ensinamento que Felipão pode aprender ao acompanhar o futebol pelo mundo está na forma como os times hoje em dia tratam a bola. Os mais atrevidos, e vencedores, chegaram à constatação óbvia e sensata de que devem tê-la sob controle na maior parte do jogo. Para tanto, roda de pé em pé, com delicadeza e segurança, com malícia e inteligência. Ao mesmo tempo, os jogadores giram com ela, num balé coordenado. Estão aí Barcelona e Espanha para provar como conciliar eficiência com beleza.

Evidentemente, há as posições e setores tradicionais de cada equipe, por ritual, por características e por tarefas de cada um. Com um detalhe diferenciador: nos conjuntos que chamam a atenção, naqueles admirados e invejados, todos exercem múltiplos papéis, craques e carregadores de piano se alternam na marcação, na criação, na finalização. Alguns mais, outros menos, o certo é que não há só os especialistas. O futebol mais do que nunca é association, arranjo, entrosamento e estratégia.

Na seleção isso não ocorre. E, justiça se faça a Felipão, não é de agora. O Brasil ainda vive do talento, do improviso, da astúcia individuais. Enfim, de história gloriosa. Tudo muito lindo e bacana. Viva o personagem, com suas peculiaridades e qualidades únicas. Não surgiu do nada a admiração pelo jogador nascido no sul da América. Não se trata mero acaso que, nestas bandas, brotaram gênios como Leônidas, Pelé, Garrincha, Zico, Ademir da Guia, Romário, para ficar em meia dúzia de exemplos e não despertar dor de cotovelo globalizada.

A terra “linda e formosa”, descrita por Pero Vaz de Caminha, é pródiga em revelar talentos logo cobiçados por poderosos e endinheirados europeus ou donos de países no “mundo árabe”. E que a fonte jamais seque! Mas esses virtuoses precisam ver seus dotes ressaltados pelo grupo e em favor do todo. Isso é possível, se forem orientados a entender que, no futebol do século 21, o craque tem de brilhar – como sempre – e suar também.

Está fadado a sucumbir o astro que se contente em desfilar por uma faixa do campo, o senhor de um limitado feudo. Por mais ardiloso que seja, os marcadores vão engoli-lo e anulá-lo. Inócuos os lançamentos longos, que atravessam o campo em busca de um velocista. Em geral, os zagueiros se antecipam, fazem o corte, dominam a bola e criam fama. Também não há espaço para o centroavante fixo, o homem de área, apenas arrematador. Nem para o sujeito que seja tão somente cão de guarda. E assim por diante…

A bola precisa rolar, as triangulações (ou os “quadrados”, para os mais sofisticados) são imprescindíveis, a movimentação tem de ser incansável. Não se trata de inventar a roda, nem de pregar uma revolução – nem foram os espanhóis que bolaram essa tática. A Holanda fazia isso quatro décadas atrás, com o Carrossel; a seleção de Telê fez em 1982.

É trabalhoso, complicado, difícil; não impossível. O Brasil tem artistas para resgatar essa maneira de atuar – Lucas, Neymar, Oscar, para citar os bem jovens. Porém, carecem de estímulo, repetição e ordem. Dá tempo para Felipão montar um time moderno. Ou sucumbiremos em casa.

*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, dia 8/2/2013.)

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