Mudanças de humor*

Antero Greco

19 de abril de 2013 | 13h01

Nem precisa ser especialista em óperas, como Roque Citadini, ex-dirigente do Corinthians cujas provocações andam em falta no futebol. Qualquer apreciador de boa música já ouviu “La donna é mobile”, do Rigoletto, de Giuseppe Verdi, em que os primeiros versos cantam: “A mulher é volúvel, e como uma pluma ao vento muda de tom e de pensamento”.

Discussões machistas à parte, aplicam-se à perfeição ao torcedor, que tem na paixão e na inconstância de humor os combustíveis que o movem. Pegue como exemplos palmeirenses e são-paulinos. Até uma semana atrás, andavam murchos, cabisbaixos, cismados com a sorte de seus respectivos times na Libertadores. A desclassificação batia à porta.

Bastou uma vitória por cabeça e tudo mudou. O Palmeiras deixou de ser o patinho feio na competição e virou motivo de pesadelos para o Corinthians – na visão palestrina, mesmo com a derrota de ontem no Peru. O São Paulo ameaçava implodir, até ganhar do Atlético e se transformar em favorito ao tetra – do ponto de vista de tricolores exultantes.

Estão errados? De maneira nenhuma. Torcer é encarar a contradição como sentimento óbvio e natural. Pedir coerência ao fã significa tirar-lhe a espontaneidade. É necessário que se deixe levar pelo calor da hora, e não deve envergonhar-se de aplaudir minutos depois de ter lascado vaias e xingamentos para os jogadores, o técnico, os dirigentes.

Atitude patrulhenta e aborrecida exigir que o torcedor se comporte com fleuma e indiferença, na alegria ou na apreensão. Assim como é antipático boleiro afirmar dedicar façanhas “para o grupo”. Conversa fiada. Um dos desafios profissional consiste em conquistar a plateia, como atores e cantores numa noitada operística. Sem público não subsistem.

O bom senso tem de ficar no lado de cá do balcão. Cabe a analistas manterem a compostura, interpretar resultados e detectar tendências. E mesmo assim com risco de levarem trança pé aplicado pelo imprevisível jogo de bola. O Palmeiras superou expectativas ao compensar carência técnica com dedicação emocionante. O empenho extremo o levou para as oitavas de final da Libertadores. Novos avanços dependem de vários fatores. Racionalmente, porém, é exagerado antever que dispute o título.

O São Paulo tem elenco melhor do que o rival doméstico, mas em teoria enfrentará obstáculo complicado, ao topar de novo com o Atlético. Clássico com mão dupla – e não me refiro a jogo cá e lá. Tanto a turma de Ney Franco pode se dar bem, por ter botado medo nos mineiros, com os 2 a 0 de anteontem, como levar uma tunda ao cutucar equipe que relaxou no Morumbi. O retrospecto no torneio indica avanço atleticano. Só que não se deve desprezar a revigorada autoestima tricolor…

A propósito de autoconfiança reconquistada, foi bacana o gesto de Rogério Ceni de assumir a responsabilidade de cobrar o pênalti que resultou no primeiro gol. Como capitão e mais experiente do elenco, respirou fundo, mirou o canto e mandou ver. Isso é o que se espera de astros.

Gratuita a frase que soltou na entrevista após o jogo, ao lamentar que a classificação tirou assunto dos repórteres, pois “desgraça vende mais do que alegria”. Mostrou que mesmo jogador articulado não está imune a preconceitos. A imprensa, esportiva sobretudo, não procura tragédias para chamar atenção. Ao contrário, grandes feitos dão audiência. A função da mídia é noticiar, opinar e não distorcer. Pena ver preconceito em quem na carreira recebeu de jornalistas, por mérito, mais elogios do que críticas.

*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, dia 19/4/2013.)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.