‘Nem vou falar nada’*

Antero Greco

03 de dezembro de 2010 | 12h26

Várias vezes, neste bate-papo trissemanal, recorri à sabedoria áspera do Toninho Cazzeguai para entender o que se passa a nossa volta. O Toninho era tratado como personagem folclórico no Bom Retiro dos anos 1960, porque tinha jeito rabugento, exagerava no falar cantado da italianada do pedaço e não se sabia ao certo como ganhava a vida. Tremendo engano. Até hoje estou pra ver sujeito com mais bom senso e retidão de caráter do que ele. O Toninho tinha a capacidade de mostrar indignação de modo bem peculiar. Quando comentava um fato que o chocava, fazia uma careta, uma pausa e lascava: “Bom, não vou nem falar nada…” Era uma sentença irrevogável de reprovação. Curta e grossa. Dizia tudo.

Nesta semana, pensei direto no Cazzeguai, que há muito tempo está a enchouriçar São Pedro. Fiquei a imaginar como reagiria a alguns episódios importantes do futebol. Um deles espocou ontem, na hora do almoço. As tevês mostraram Herr Joseph Blatter cheio de mesuras ao anunciar as sedes das Copas de 2018 e 2022. O mandachuva da Fifa lembrou que futebol é integração dos povos, fair-play, isto e aquilo. Só belezura.

Um discurso manjado, diante de plateia em parte ansiosa, em parte entediada, para justificar a escolha de Rússia e Catar como próximos anfitriões da competição mais rentável do planeta. Os russos bateram, por exemplo, a Inglaterra, que é hoje um dos países com estádios, infraestrutura, organização esportiva e competitividade mais perfeitos do mundo. Palco ideal para torneio de tal envergadura, candidatura mais do que natural para a Copa. Os árabes ficaram à frente de norte-americanos, australianos, japoneses, que entendem de eventos como poucos e gastam só o necessário.

O colégio eleitoral da Fifa, sobre o qual ultimamente despencaram trovoadas de denúncias de corrupção e tráfico de influências, preferiu dois mercados emergentes, em que serão necessárias inúmeras obras, sobretudo na construção de estádios. E nisso se gasta uma grana dos diabos. Gente da melhor índole interpretou a decisão como um olhar desprendido para o desenvolvimento do futebol. Viu sentimentos singelos nos cartolas que escolheram o destino da taça, que vai para essas paragens depois de perambular por África do Sul e Brasil, onde não por acaso rola uma dinheirama. Na hora, veio o Cazzeguai na minha cabeça. “Bom, não vou nem falar nada…”

O fantasma do Toninho me cutucou também nessa história de mala branca x mala preta, que não sai do noticiário. Jogador de olho na “caixinha, obrigado” que receberá de fora, se fizer bom serviço para terceiros, alega com candura que é o mesmo incentivo do bicho. Não leva em conta diferença mastodôntica: o bicho é prêmio pago pelo próprio clube, uma espécie de bônus por meta alcançada. A mala branca é grana enviada por um concorrente, por um time que amanhã será seu adversário e com o qual muitas vezes os interesses se chocarão. Isso é promiscuidade, falta de honestidade, mesmo que seja prática corriqueira no meio da boleirada. Mas, como diria o Cazzeguai: “Bom, não vou nem falar nada…”

Outra conversa fiada é o entregou, não entregou. O Wagner Vilaron, fidalgo companheiro de muitas batalhas jornalísticas, abordou o assunto ontem, aqui no Estado. Sem ficar no muro, deu sua opinião e escreveu que São Paulo e Palmeiras ofertaram o ouro para o Flu, talvez por temerem reação negativa de suas torcidas. Concordo com ele, com um adendo: o Vasco fez algo semelhante diante do Corinthians, provavelmente por motivação idêntica à dos paulistas. Medo, egoísmo são sentimentos menores, porém compreensíveis.

Só que uma pulga ficou a sambar atrás da minha orelha. O Inter de Porto Alegre poderia ter relaxado contra o Botafogo, duas rodadas atrás, e assim complicaria a vida do Grêmio. No entanto, aplicou-se, venceu e agora corre o risco, digamos assim, de ver o rival na Libertadores do ano que vem. Quem teve atitude mais digna, quem mostrou mais espírito esportivo: o Inter? Ou São Paulo, Palmeiras e Vasco? O que diria o Cazzeguai? “Bom, não vou nem falar nada.”

Melhor mesmo, Toninho.

*(Texto da minha coluna no Estado de hoje, 3/12/2010)


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