Neymar comedido, sem graça. Cadê a espontaneidade?

Antero Greco

22 de outubro de 2010 | 02h56

Vi a maior parte da entrevista de Neymar, nesta quinta-feira, e não gostei. O rapaz ficou um mês e meio sem falar com a imprensa e, quando abriu a boca, foi uma decepção. Fiquei frustrado porque não vi o jovem espontâneo de outras ocasiões, de riso fácil, de frases sem efeito e ocas, mas adequadas para sua idade. Em vez disso, um projeto de ídolo pouco à vontade com as normas de comportamento que certamente lhe passaram nesse período de recolhimento.

Li que o Santos cuida mais de perto da imagem dele, com profissionais de publicidade e de comunicação. Além disso, contratou fonoaudiólogo para melhor sua dicção e psicólogo para arejar-lhe a cuca. A direção do clube ficou assustada com a repercussão que tiveram seus pitis e o desentendimento que resultou na demissão do técnico Dorival Júnior. Os cartolas não querem ver virar vidro a joia que estão a lapidar.

Está bem, o mundo do futebol hoje é assim: aparece um talento aparentemente acima da média e na hora deve ser cercado de cuidados. Porque tem potencial para transformar-se numa mina de ouro, numa grife, numa marca registrada. Ganhará fama e fortuna, mas vira robô, boneco, perde humanidade. Tende a viver num mundo irreal, asséptico. Sem direito a falhas, sem espaço para contradições, sem variação de humor.

O Neymar que revi nesta quinta-feira me passou a impressão de que ainda resiste – pelo sorriso sem graça, pelo pouco à-vontade. Mas acho que essa resistência não vai durar muito. Que pena. Logo teremos um ídolo plastificado, que rezará a cartilha dos lugares-comuns e da futilidade. Deus queira que eu me engane. Amém.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.