Neymar e o estímulo à mediocridade

Antero Greco

21 de julho de 2012 | 12h35

Continua em destaque o desempenho de Neymar no amistoso de ontem contra a Grã-Bretanha. Realçam-se mais o “excesso de firula” do moço e as vaias que a torcida inglesa lhe mandou do que os passes certos, a participação no jogo e o papel que teve nos dois gols da vitória. Ou seja, se esmiúça o suposto lado negativo e se fecha os olhos para as qualidades.

Como não poderia ser diferente em ocasiões como essa não faltou a palavrinha comedida do treinador. Mano Menezes, no tom monocórdio das declarações dele, falou que o Brasil insistiu na individualidade, “que não tiveram consequências finais”. Em linguagem mais direta, quis dizer que Neymar foi além da conta. Até pode ser. Mas, e daí?

Neymar abusa – e acho ótimo isso. Abusa porque confia em si, porque tem habilidade, porque não tem medo de errar. Acredita nele, está com a autoestima em alta. Qualquer um que é diferenciado na profissão que escolheu ostenta o atrevimento como traço marcante da personalidade. A ousadia leva a sair do lugar-comum e faz com que se produzam coisas novas, surpreendentes. E erros também. Os criativos pisam na bola, e como!

Mas temos medo (e dor de cotovelo) do talento. Preferimos a “normalidade”, o meio-termo que não nos abale, que não nos tire do caminho habitual. No futebol, aplaudimos o drible, desde que não seja demasiado ou só se for de jogador do nosso time. Queremos a diversidade, pero no mucho. A vida não deve ter sobressaltos. E, como o esporte faz parte da vida, queremos enquadrar e enquadrar e enquadrar…

Neymar é extrovertido e irreverente. Por isso, às vezes passa das medidas. Não vi tanto exagero nos dribles ontem. E, em alguns momentos, percebi que brincar com os adversários era o caminho que encontrou para provocar a torcida, que o vaiava por um lance em que exagerou no contorcionismo de supostas dores após uma falta.

Era o jeito de dizer para o público que estava ali para divertir-se – e foi para cima dos marcadores. Aliás, quebrou a monotonia de um jogo ruim pra burro, contra uma equipe britânica insossa e sem graça. Neymar usou do melhor expediente que existe no futebol, que é a finta. Antes apelar para a habilidade (exagerada que seja) do que à violência. Esse é o recurso dos medíocres.

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