Neymar faz quatro. E queremos que ele vá embora…

Antero Greco

14 de abril de 2013 | 01h10

Faz algum tempo remo contra a maré, ao defender a permanência de Neymar no Brasil por mais algumas temporadas. Posição que não tem respaldo de muita gente boa, que, sem qualquer ligação direta com o rapaz, insiste na saída imediata, para que possa ganhar experiência e tornar-se maior. Consideram que só na Europa poderá crescer, ganhar prêmios, ajudar a seleção brasileira, rivalizar com os craques internacionais, etc.

Neste sábado, Neymar reforçou a minha convicção de que o exílio será umapena, ao marcar os gols dos 4 a 0 do Santos sobre o União Barbarense, pelo Campeonato Paulista. Fez dois em cada tempo, teve outro anulado, mandou bola na trave, deu passes, dribles e saiu de campo como a estrela maior. Deixou o time na segunda colocação na classificação. E encheu os olhos de quem curte futebol e seus artistas.

Se tivéssemos maior autoestima, nos encheríamos de brios e brigaríamos para que não se deixasse seduzir agora pelos euros do Barcelona ou de quem quer que seja. Não ficaríamos a todo momento batendo na tecla de que não há mais espaço para ele por aqui. Ao contrário, exigiríamos a permanência, para alegria geral da nação. E obrigaríamos os cartolas a serem mais cuidadosos com a matéria-prima que temos.

Em vez disso, nos curvamos para os europeus, nos conformamos com o poder de compra de quem tem bilionários russos ou árabes no comando, consideramos natural e inevitável o êxodo, vemos o empobrecimento técnico como destino incontornável. Viramos sempre mais torcedores de televisão e não de estádios. Não temos ídolos, nossas crianças ficam sem referências locais para encantar-se. Uma tristeza.

No lugar de apontarmos o dedo para Neymar e acusá-lo de cai-cai, mascarado, marqueteiro e outras bobagens menores, deveríamos nos unir e carimbá-lo como patrimônio nacional. Quem sabe assim os outros clubes não se animassem a se mexer, a tornar-se profissionais e segurar o que têm bom e dar uma banana para os estrangeiros?

Sonho, loucura, besteira, divagação, quimera, utopia? Sei lá, pode usar o termo que quiser. Mas ainda imagino o dia em que curtiremos nossas joias por bastante tempo, antes que elas se decidam a mostrar suas qualidades para outras plateias. Enquanto isso, babamos para os Barças, Manchesters, Milans da vida. E eles nos olham como gentalha, que se sente honrada porque seus melhores jogadores atraem a atenção dos colonizadores.

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