Novatos ou cobras criadas. Importa é a vontade*

Antero Greco

31 de maio de 2014 | 17h08

Como os antigos xerifes das áreas miravam as canelas dos atacantes dó: a gente gosta de um certo alarme. Sobretudo quando se trata de seleção. Como não é de bom-tom levantar demais a bola do time nacional, saímos à cata de algo fora do prumo, para acionarmos o alarme, para gritarmos que algo pode dar errado, para mantermos o dom da profecia. Para falarmos, mais tarde, com ar sábio, superior e compungido: “Eu sabia, e bem que tinha avisado antes.”

Na falta de bola a rolar pra valer, paira no ar a cisma de que o grupo reunido em Teresópolis tem novatos aos potes, muita gente que jamais disputou um Mundial. Portanto, sem tarimba ou lastro suficientes para aguentar o tranco. Já ouvi mais de um levantar essa particularidade e realçar o inequívoco potencial dramático e trágico que ela comporta. Indício incontornável de fiasco na empreitada.

Fato que, dos 23 concentrados na Granja Comary, só meia dúzia já vestiu a amarelinha na competição, cinco deles hoje na lista titular – Julio Cesar, Daniel Alves, Thiago Silva, Ramires e Fred. O lateral reserva Maicon fecha o grupo dos veteranos. O resto parte para a primeira aventura, e em casa. Com o que esse detalhe tem de bom (proximidade do público e dos parentes, familiaridade com o ambiente) e de ruim (a cobrança por sucesso obrigatório, a pressão por representar a pátria, a lembrança de 50.) Há delícias e suplícios.

O peso da inexperiência é relativo, como tudo na vida. O Brasil já quebrou a banca com elenco sem muita rodagem (em 2002, só quatro titulares tinham passagem prévia por Mundiais e ajudaram a faturar o penta) e entrou pelo cano com trupe de estrelas (parte da turma de 2006 vinha com a conquista de quatro anos antes). Assim como venceu com cobras criadas (o bi, em 1962, tinha como base o pessoal de 1958) e foi desbancado com diversos jovens (a equipe de Telê em 1986). Enfim, teve de tudo.

Sejamos sinceros: a questão da vivência, neste caso específico, serve para espargir pitada de polêmica numa semana de treinos suaves e sem turbulência na seleção. Quando a jabulani – jabulani, não, a zuleika… a fuzarca… a brazuca, eita! – quicar, contarão a preparação, a estratégia, a tática, a confiança da equipe. A vontade, a dedicação, a busca por afirmação total.

“A fome”, como definiu ontem David Luiz, escalado para a rodada de perguntas com a imprensa. O zagueiro cabeludo e careteiro ponderou bem ao admitir que um punhado de profissionais sem título – ninguém foi campeão do mundo, ainda – pode ir à luta com desejo irrefreável de vitória, maior do que se fossem mais medalhados do que chefe de escoteiros. Na hora, me veio em mente os badalados astros da seleção de 2006, em que cada um buscava recorde pessoal e o conjunto foi para o beleléu, engolido por Zidane e discípulos.

Não custa botar fé em tal raciocínio. Esses jovens podem nem faturar a taça – é do jogo –, mas levam jeito de não baixar a guarda. Têm tanta boa vontade que ontem escutaram conselhos e palavras de incentivo em almoço com presidentes da CBF, o atual e o futuro. Só por isso dá para crer que estão prontos pro sacrifício.

*(Minha crônica no Estado de hoje, sábado, dia 31/5/2014.)

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