Noites de insônia*

Antero Greco

28 de novembro de 2010 | 11h04

Na noite de quinta-feira, bati longo papo com um colega de profissão que conhece muito de bastidores de política de cá e de lá. Raposa velha, contou histórias de arrepiar. Fatos que colocariam no chinelo filmes B de gângsteres ou os clássicos “de medo”. Enfim, confidenciou coisas de tirar o sono de qualquer vivente. Não dá nem pra contar aqui, pois não sou tonto (faltam provas) e, além disso, caro amigo, iria estragar seu domingo logo cedo. Voltei pra casa encafifado e um tanto desacorçoado da vida.

Pra embrulhar mais o estômago, e misturar os canais, zuniam na minha cabeça explicações de um dirigente do Palmeiras que acabara de ouvir na ESPN/Brasil. O cartola dizia que, por ele, o time nem entraria em campo neste domingo contra o Fluminense. Mas emendava, para mostrar sua impotência decisória: “Infelizmente, não depende de mim”. Ou seja, estava chateado porque a equipe teria de cumprir penoso compromisso esportivo, na penúltima apresentação de um ano maledetto.

O advérbio ficou a martelar-me a cuca. “Infelizmente… infelizmente…” Aí se completou a conexão (“cair a ficha” já era…) Infelizmente uma vírgula! Como pode um diretor cogitar da possibilidade de o Palmeiras dar WO?! A estranha lógica era a seguinte: para compensar a decepção da queda na Sul-Americana, nada melhor do que perder e prejudicar um rival – no caso o Corinthians – interessado no resultado. Raciocínio entortado. Se essa atitude covarde passou pela cabeça dele, deveria ter ficado por lá mesmo. Há coisas que não se falam, ainda mais vindo de personagem público.

Talvez o cartola tenha achado que faria bonita figura com sua torcida ao despejar tamanha insanidade, já que é isso que ela pretendia ouvir. Só não se deu conta da grandeza palestrina, parece não ter entendido o que significa o Palmeiras e a história que carrega. O desabafo, no entanto, foi didático e ajudou a entender mais um pouco o porquê da derrocada dessa agremiação quase centenária. Não se deve esperar de um time grandes proezas em campo, se fora dele quem comanda pensa pequeno.

O Palmeiras joga hoje, para contrariedade de seu gestor – e o Flu que se preocupe e não se meta a fazer festa adiantada. Parece contraditório, e é, como o próprio Palestra. Com força máxima (sem ironia) ou com formação meia-boca, o alviverde é tão imprevisível e esquizofrênico que não me surpreenderá se vier a roubar pontos do líder. O mínimo a se cobrar de seus jogadores é postura decente. Não importa a pressão de três ou quatro folgados que ameaçam partir pra ignorância, se a equipe não entregar o ouro. Esses sujeitos, no fundo, não são palmeirenses, têm comportamento egoísta e também ignoram as glórias do clube.

O Flu que se acautele, não custa nada. Esse Palmeiras é traiçoeiro feito o capeta. Mas, em situação normal, o tricolor manterá a dianteira. É time melhor, mais nivelado, ostenta eficiência e equilíbrio que faltam ao rival com o qual topará em Barueri, no mesmo local onde uma semana atrás deu surra de 4 a 1 no São Paulo.

Depois de oscilações e baixas, Muricy Ramalho pode contar com Deco, Conca, Washington, Fred na reta final. Até Emerson, que fez falta danada no segundo turno e está felizmente, recuperado, vai para o jogo. Mas atenção, Flu: perder o título agora provocará entre seus fãs frustração semelhante àquela do Palmeiras diante do Goiás.

O Corinthians e o Cruzeiro correm por fora, em duelos contra cariocas em situação oposta. O time de Tite topa com um Vasco na zona do tico-tico no fubá, ou seja, não tem nada a ganhar nem a perder. É um perigo jogar contra franco-atiradores, ainda mais sem a experiência de Ronaldo na frente. A equipe de Cuca se depara com um Flamengo ainda levemente ameaçado de rebaixamento e que dará pulos de alegria com um empate. Só que empate enterra de vez qualquer pretensão mineira.

Por isso, Corinthians e Cruzeiro botam fé no empenho do Palmeiras. Mas receio que, no Parque São Jorge e na Toca da Raposa, tem muita gente a perder o sono.

*(Texto da minha coluna no “Estadão” de hoje, 28/11/2010)

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