O bom combate*

Antero Greco

29 de agosto de 2012 | 11h25

Fora descer a lenha em bandeirinha que erra impedimentos por centímetros, tema que anda na moda por estas bandas é discutir se jogadores simulam faltas em excesso em qualquer dividida mais ríspida. Tite levantou a bandeira da moralidade, dias atrás, ao encasquetar com Neymar, em sua visão exímio acrobata nos choques com zagueiros. O treinador do Corinthians voltou à carga ontem, ao admitir que Paulo André deveria ter tomado cartão amarelo, no domingo, por rolar no chão com a mão no rosto, após encontrão normal com Luis Fabiano, no clássico com o São Paulo.

Ao criticar o zagueiro titular do time que comanda, Tite tratou de demonstrar em público que não age na base do dois pesos, duas medidas. Lembrou ainda que a regra é igual para todos. Com isso, eximiu-se da pecha de defender privilégios para seus rapazes. O próprio Paulo André, um dia antes, havia emitido nota em que reconhecia o exagero.

Atitudes bacanas de ambas as partes. Louvemos o fair-play, e que seja incentivado. Mas, vamos falar sério: era para tanto? Não. O teatrinho de Paulo André foi banal, inócuo e das coisas mais antigas do esporte bretão. (Sempre imaginei um dia usar essa expressão.) Até quando pelada de rua era sinônimo de bate-bola descontraído e não de protestos do grupo Femen, as manhas já faziam parte do jogo. “Foi falta! Não foi!”, “Foi mão na bola! Não, foi bola na mão!”, “Lateral nosso! Não foi!”, “Foi escanteio! Não, foi tiro de meta!”, “Pênalti em gol é gol!” Quantas vezes não ouvimos essas discussões? Atire a primeira pedra quem achar que é mentira.

A astúcia é uma das bases do futebol, a malícia jamais saiu de campo. São componentes lúdicos de uma atividade que nasceu como brincadeira de menino e que há séculos transforma homenzarrões em pirralhos, sejam profissionais ou amadores. Futebol sem picardia, sem discussão, sem lábia, sem polêmica, é qualquer coisa menos futebol.

Está na hora de frear a vigilância obsessiva em torno de atos banais que correm dentro de campo. Não dá para perder tempo com justiceiros, da mídia e das redes sociais, a clamar cartões, suspensões, quem sabe prisões, para boleiros que recorram a expedientes manjados e não ilícitos. Não se pode condenar ao fogo eterno quem comete pecados venais, se é que não esqueci das lições de catecismo do Liceu. A onda de cobranças beira a paranoia, sem contar a dose de hipocrisia mal disfarçada.

Não defendo salvo-conduto para o jogador que abusa dessa armadilhas. A repetição leva ao desgaste, à desmoralização no meio, com os árbitros, os treinadores, a crítica e a torcida. Deixa de ser prova de inteligência para virar demonstração de mau-caratismo. Gente assim se perde.

Bom combate, ao qual me alio, é contra o jogador violento e malvado, contra o técnico que manda bater nos rivais e que indica contratações por interesses escusos, contra o árbitro desonesto, contra o empresário sem escrúpulos, contra o cartola corrupto, que abusa da boa fé do torcedor para levar vantagem. Isso estraga o futebol, não o pecadilho eventual de um Paulo André, que só mostrou o quanto é humano e, portanto, falível.

*(Minha crônica no Estado de hoje, quarta-feira, dia 29/8/2012.)

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