O cordial Cortês*

Antero Greco

30 de setembro de 2011 | 10h04

Sabe quem ficou todo prosa com a vitória do Brasil sobre a Argentina? Como é que é?! O Lucas?! O garoto do São Paulo de fato comeu a bola e mostrou que serve para decidir jogos e não só para ficar no banco. Mas não é dele que quero falar. Quem mais? O Mano Menezes?! Lógico, bater os hermanos, mesmo com formação B ou C, sempre é bom. No caso, deu-lhe sensação de alívio e bem-estar, como uma propaganda de antiácido ou antigripal. Também não  me refiro ao técnico. Quem ainda?! O cartolão-mor?! Imagina, a preocupação desse vai  além de miudezas! 
 
O cara mais festejado após os 2 a o  de anteontem  no Mangueirão foi Bruno Cortês. O rapaz que até outro dia jogava  a Série B no Rio de uma hora para outra virou celebridade nacional. A camisa 6 da seleção não pesou às suas costas. O maranhense com dentes ainda desalinhados e cabelo de Coalhada se comportou com o manto que carrega cinco títulos mundiais como se estivesse a defender o Castelo Branco, o Quissamã ou o Nova Iguaçu. Ou seja, atuou com o carinho e a desenvoltura de quando vestia uniformes com história modesta. Fez o que se espera de quem ama o futebol.
 
Cortês defendeu, atacou, deu piques para todo lado. Driblou, foi à linha de fundo. De seus pés nasceu a jogada do segundo gol, aquele que garantiu  o Troféu Nicolas Leoz, homenagem ao sempiterno presidente da Conmebol. O calor úmido de Belém nem lhe passou pela cabeça. O campo ruim, cheio de areia, em nada era muito diferente daqueles nos quais gramou em times quase amadores antes de ser notado pelo Botafogo. Ora, um rapaz de pouco luxo iria meter-se a besta de reclamar do relvado paraense? Só se fosse bobo.
 
E tonto Cortês não é. Simples, sim.Cordial e  afável,  idem. Por isso, em pouco tempo se tornou figurinha fácil em entrevistas – muitas vezes usadas menos para revelar o que ele pensa e mais para ressaltar o tipo diferente, que lembra o  personagem criado por Chico Anysio. Cortês compõe à perfeição o  estereótipo do jogador  pouco esclarecido,  bonachão e folclórico. O simplório que não se envergonha de agradecer a Jesus pelas portas que lhe abriu. O humilde que não mete bronca em ninguém.
 
Cortês tem um pouco de cada uma dessas características (ou seriam preconceitos?). Graças a Deus! Elas em nada o diminuem, como poderia parecer para olhares esnobes. Ao contrário: há tanta presunção por aí – não só de boleiro –, que simplicidade virou artigo raro e virtuoso.  Na hora em  que aparece alguém despojado e sem afetação chama tanta atenção como ararinha azul.
 
 Cortês é  espécime em extinção no mundo da bola. Como negar simpatia para um moço que voltou para casa encantado com a reação da torcida, que gritou seu nome? Que o aplaudiu, como fez para Ronaldinho Gaúcho, rico, famoso, campeão do mundo, enquanto ele é apenas um rapaz latino-americano, sem parentes importantes e vindo do interior? (A propósito: por onde anda o Belchior? Já foi encontrado?)
 
O aspecto mais importante a ser ressaltado é o óbvio: Cortês jogou bem, esteve à altura da tradição da lateral-esquerda nacional. Não custa lembrar que por lá passaram Nilton Santos, Júnior, Roberto Carlos, gente do mais alto calibre. Cortês pertence a  casta especial? Não, mas honrou os mestres da posição.
 
O desempenho de Cortês foi algo de aproveitável do caça-níquel batizado de Superclássico das Américas. Valeu também pela explosão de Lucas, pela eficiência discreta de Danilo e Réver, pela desenvoltura de Neymar. Esperava mais de Ronaldinho Gaúcho. Sempre se espera muito dele…
 
Preocupante foi a sugestão de que, o time formado por brasileiros que atuem por aqui  teve mais identidade nacional. Não é por aí. Primeiro, não se deve supervalorizar os jogos recentes com argentinos.  Em segundo lugar, não é menos brasileiro quem sai para ganhar a vida no exterior. Assim como não se tornam craques todos os nossos  jovens que vão pra fora. O que se espera de técnico da seleção é que chame os patrícios em melhores condições, seja lá onde desfilem sua arte, e que estes correspondam. Só isso.
 
Cortês passa ao largo dessa discussão e saboreia a fama. E deu o recado: professor, quando precisar, é só chamar. Pena que não esteja na lista dos amistosos contra Costa Rica e México (irão Marcelo e Adriano). Quem sabe, se tivesse sido chamado não iria conquistar os mexicanos com dribles e não com armas e artimanhas como cinco séculos atrás fez outro Cortez – o  espanhol exterminador de astecas? Xiii, viajei na História…
 
*(Texto da minha coluna  publicada no Estado de hoje, dia 30/9/2011.)

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