O fim do mundo*

Antero Greco

24 de junho de 2012 | 12h02

Você certamente já leu por aí que o mundo vai acabar em 12 de dezembro, ou seja, em menos de seis meses. É mais uma das teorias que, vira e mexe, se espalha no ar para avisar os incautos de que a brincadeira na terra se aproxima do fim. Como Nostradamus passou de moda e deu muita bola fora, parece que a de agora está ligada a uma previsão maia, asteca, inca ou similar, embora esses povos da América pré-colombiana não adotassem o calendário gregoriano, este nosso, que tem a coincidência do 12/12/12.

Mas, como tem tonto pra tudo, há quem acredite na conjectura catastrofista, e não faltam picaretas para faturar grana em cima do medo. Só não se sabe quando os gurus vão torrar o dinheiro…

Se eu fosse um dos que creem nessas cascatas, diria que a semana trouxe dois sinais irrefutáveis de que a vaca vai pro brejo. Pensou em Corinthians e Palmeiras? Então, meu amigo, acertou na mosca. Quem diria que os lanternas do Campeonato Brasileiro garantiriam vagas para duas finais importantes – Taça Libertadores e Copa do Brasil, respectivamente? Um assombro, um indício de que estamos no apito final dos tempos.

Os mais gozadores encampam a ideia de que a vida por aqui será pulverizada. Pois, onde já se viu o Corinthians ganhar a taça que o esnoba há décadas? Só o fato de na quarta-feira à noite ter chegado à decisão já justificaria a bruxaria dos magos indígenas do lado de lá da Cordilheira dos Andes. Se isso não era suficiente, no dia seguinte o Palmeiras saltou para a fase derradeira de um torneio nacional, o que não ocorria havia 12 anos. Trata-se de conluio de astros para destruir planeta tão único, rico e lindo.

Interpreto essas efemérides com olhar diverso dos apologistas do fim do mundo. Como nostálgico incorrigível, vi nas proezas de corintianos e palmeirenses o resgate de época dourada do nosso futebol, do período em que os dois clubes davam as cartas e dividiam a preferência dos torcedores, no mano a mano, quase meio a meio. São Paulo e Santos não passavam de coadjuvantes, se bem que beliscassem títulos.

Palmeiras e Corinthians voltaram a agitar a cidade – e o farão até 11 de julho, data que vai apontar o campeão da Copa do Brasil. Nas próximas três semanas, o destino dessas equipes será acompanhado de perto. Jamais o Boca Juniors teve tantos hinchas nestas bandas e nunca o Coritiba poderia imaginar que se tornaria tão popular na Pauliceia. Secadores de ambos os lados já entrarem em ação, com promessas, despachos, parcerias com argentinos e paranaenses. Vale tudo para secar a vida do adversário.

Como tira-gosto, a tabela do Brasileiro de 2012 marcou para hoje mais um dérbi paulistano – e no Pacaembu, o palco histórico e ideal para celebrar o encontro dos irmãos de sangue e rivais irreconciliáveis. O perdedor vai segurar a lanterna, mesmo que neste instante seja detalhe irrisório, diante da perspectiva de sucesso maior e de alta repercussão.

Felipão e Tite sabem, por experiência de outros carnavais, o quanto significa vencer o clássico – e ficam numa sinuca para escalar os titulares. O palmeirense tem menos dramas de consciência, porque a aventura com o Coritiba começa no dia 5. Já o corintiano precisa preservar suas joias, para a incursão desta semana em Buenos Aires. Na teoria, e apenas nela, o Palmeiras pode se dar melhor.

De qualquer forma, ganhará aquele que ama o joguinho de bola e que consegue enxergar a beleza do momento que vivem os dois esquadrões. Perderão só os que não têm capacidade para ir além de rixas e violência.

*(Texto da minha crônica no Estadão de hoje, dia 24/6/2012.)

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