O jogo da vida*

Antero Greco

26 de julho de 2013 | 12h36

Há tendência a idealizar o futebol e enxergá-lo além e acima de qualquer atividade comum. Normal, pois o esporte dá dimensão maior e especial à vida. Nele, tudo se torna épico, bonito, vitorioso, glamouroso. Jogadores são super-heróis, com realidade melhor do que a nossa. Nos representam, para ficar em expressão da moda.

Bobagem, embora compreensível. O futebol reproduz sentimentos e situações com as quais topamos a todo momento, em casa, no trabalho, nas mais corriqueiras tarefas. Tensão, alegria, fé, inveja, intriga, derrotas, conservadorismo, perdas – tudo isso se encontra nos gramados e nos bastidores. A semana nem terminou e exemplos não faltam de fatos que fundem futebol e vida.

Superação. O título do Atlético na Libertadores. Décadas se passaram até o Galo bicar a taça que o coloca em evidência internacional. Não gosto do lugar-comum que fala, para tal time, “tudo tem de ser mais difícil”. Mas reconheço que houve esperança, tensão, temor, tudo misturado, até Gimenez perder o pênalti e garantir a explosão de alegria definitiva no Mineirão.

Fé. Em duas frentes. A diretoria acreditou em diversos profissionais renegados. Apostou em Victor, Pierre, Richarlyson, Alecsandro, Jô, Tardelli, Josué e no próprio Ronaldinho Gaúcho, que dávamos como acabado. Eles formaram a espinha dorsal campeã. E fé e perseverança, acima de tudo, de Cuca, com as orações, a certeza da ajuda de Nossa Senhora… e com muito trabalho. No início da madrugada de ontem, chutou de bico o estigma de pé-frio, estereótipo maldoso no mundo da bola.

Inveja. Mal jogadores, comissão técnica e torcedores do Atlético caíam na farra pela proeza inédita, começou a circular nas redes sociais a corrente que acusava a existência de um complô. O clube mineiro comprou a copa, chegou ao topo à custa de corrupção. Uma dor de cotovelo que não resiste ao mais singelo exercício lógico.

Decepção. Como ficou a torcida do Olimpia? Você se deu conta de que milhares de paraguaios foram dormir tristes pelo desfecho da competição? Quantos choraram? Como voltaram para casa os atletas paraguaios? Sim, perder é da vida. Quem de nós já não caiu do cavalo pelo menos uma vez?

Desespero. A situação do São Paulo. A equipe entrou em parafuso, com as oito derrotas consecutivas e a perspectiva de segurar lanterna, ao voltar de excursão para Europa e Ásia. Gente experiente como Rogério Ceni, Lúcio, Luis Fabiano (de novo contundido) não acerta uma, jovens como Ganso e Osvaldo sumiram. A consequência se materializa na pior fase da história.

Intriga em família. Os bastidores no Morumbi são um balaio de gatos. No domingo, um churrasco na sede do clube virou palco de bate-boca entre o presidente, bajuladores e opositores. Um barraco daqueles, parecido com discussão entre cunhados, genros e agregados. No final da tarde de ontem, Adalberto Baptista teve cassada a carteirinha de diretor de futebol, porque não falava a língua dos boleiros.

Reconciliação. A torcida do Palmeiras anda de mãos dadas com o time e Valdivia. As vitórias na Série B, a liderança na tabela e as atuações do chileno levaram bonança ao Palestra Itália. Já não era sem tempo.

Caretice. Alexandre Gallo, responsável pelas seleções de base, disse em entrevista ao Estado que não haverá lugar na amarelinha para jovens com brincos, cortes de cabelo exóticos, fones de ouvido. Só vai quem tiver imagem séria. Gallo, pelo jeito, esqueceu a adolescência. Ou deve ter sido muito reprimido. Agora olha para a aparência e não para a essência.

Saudade. E lá se foi Djalma Santos bater bola nas nuvens. Foi suave, manso, garboso, como a vida que levou, como o futebol que mostrou, como anjo. Fez lembrar poeminha de Manuel Bandeira, Irene no céu. “Irene preta/Irene boa/Irene sempre de bom humor./Imagino Irene entrando no céu:/- Licença, meu branco!/E São Pedro bonachão:/- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.”

Futebol e vida são uma coisa só.

*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, dia 26/7/2013.)

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