O ministro e a passagem do tempo

Antero Greco

17 de junho de 2013 | 19h33

Nunca fui militante de nenhum partido político – e até hoje não sei se essa opção foi é boa ou ruim. Sei, apenas, que pertenço a uma geração sufocada e proibida de manifestar-se. Em todo caso, tenho simpatias por certas ideias e votei em candidatos nos quais acreditei. Com boas surpresas e muitas decepções, como qualquer cidadão.

Sei que historicamente legendas da antiga esquerda sofreram perseguições no Brasil, com suspensão, ilegalidade forçada, cassações, prisões. Por isso, ganharam aura de heroísmo para a juventude de diversas épocas. PCB, PCdoB e outros de ideologia semelhante atraíram simpatizantes por teoricamente defender causas populares.

Por isso, decepciona quando se vê um ministro de Estado, eleito por uma dessas siglas, enveredar por discurso semelhante à de governos contra os quais combateu. Aldo Rebelo, do PCdoB e hoje titular da paste de Esportes, fez lembrar representantes da velha ordem, ao afirmar nesta segunda-feira que o governo não permitirá que nenhuma manifestação atrapalhe qualquer dos eventos que o Brasil se compromete a realizar.

Rebelo considerou, portanto, correta a contenção dos protestos, não crê em arranhões na imagem do País e tem certeza de que o mundo verá que vivemos numa democracia.  Sobretudo tratou de serenar a Fifa e parceiros a respeito do andamento dos jogos da Copa das Confederações e das obras para o Mundial do ano que vem.

Um ministro não pode ser incendiário, concordo. Não é função dele agir como panfletário. Mas, por sua origem e filiação (foi até presidente da União Nacional dos Estudantes), se esperava uma reação de conciliação, ou que dissesse palavras que indicassem a busca por diálogo e entendimento. Enfim, a reafirmação categórica de convicções democráticas. Assim como de outros setores do governo, que se mantêm calados.

Não há como sentir desalento e ver que sonhos e ideais de juventude se desfazem com o tempo. Seja por cansaço, por acomodação, por tristeza. Ou por chegar ao poder.

 

 

 

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