O Palestra encolheu*

Antero Greco

26 de novembro de 2010 | 17h47

Vi, com o olhar fascinado de menino, o Palmeiras transformar-se em Academia, nos agitados anos 1960, com Valdir, Dudu, Djalma Santos, Djalma Dias, Valdemar Carabina, Ferrari, Zequinha, Ademir da Guia, Julinho Botelho, Servílio, Vavá, Gildo, Rinaldo e tantos outros astros. Vi aquele time encarar, intimidar e envolver o Santos de Gilmar, Mauro, Lima, Zito, Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pepe e um certo Pelé. Vi aquela equipe não dar bola pra São Paulo e Corinthians e conquistar títulos locais e nacionais com a autoridade que lhe era inerente.

Vi o Palmeiras trocar a camisa verde pela amarelinha e bater o Uruguai por 3 a 0, na inauguração do Mineirão, em 1965. Sem mais nem menos, sem fazer força, Rinaldo, Tupãzinho, Germano estufaram redes novinhas. Ninguém estranhou a metamorfose. Afinal, aquele time era sinônimo de seleção. Por que perder tempo com convocações aqui e ali? Era mais fácil, mais prático, mais justo converter um uniforme em outro, só por 90 minutos. A nação, agradecida, fez reverência à máquina dirigida pelo argentino Don Ernesto Filpo Nuñez.

Vi o Palestra ser o Brasil de fato, e sem ironia, na Libertadores de 1968, em duelos épicos nas finais contra o Estudiantes. Vi no Pacaembu lotado à noite bandeiras de rivais ao lado dos estandartes com enormes “P”, todos unidos contra os argentinos. E as vi serem agitadas nos 3 a 1, gols de Tupãzinho (2) e Rinaldo. Imaginava, então, que por algumas horas fosse possível esquecer diferenças clubísticas em nome da pátria de chuteiras. Não existiam ainda as torcidas organizadas e o radicalismo que levaram para as arquibancadas.

Vi, com o olhar inquieto de adolescente, o surgimento e o auge da segunda edição da Academia, nos anos 1970. Revista e melhorada, talvez mais implacável do que a primeira. A formação titular até hoje soa como doce estrofe musical, a ser entoada com suavidade: Leão; Eurico, Luís Pereira, Alfredo e Zeca; Dudu e Ademir; Edu, Leivinha, César e Nei. Quem já dobrou a curva dos 40 anos ou mais sabe o bolão que jogou aquele amontoado de astros, sob o comando de mestre Osvaldo Brandão.

Vi, com o olhar atento da maturidade, o renascimento palestrino, nos anos 1990, na parceria com a Parmalat. Um consórcio ousado, que tirou o time do limbo, acabou com a abstinência de taças e o recolocou na trilha da qual jamais deveria ter saído. Breve, e inesquecível, parêntese nessa jornada em direção à decadência. A versão 3 da Academia abrigou craques do quilate de Veloso, Cafu, Roberto Carlos, Rivaldo, Evair, Edmundo, Zinho, Mazinho, César Sampaio. Lotou estádios, devolveu a autoestima à torcida. Isso foi dia atrás, não faz tanto tempo assim, e acabou num instante, dissolveu-se, azedou.

Lembrei desses momentos anteontem, enquanto assistia à derrota para o Goiás – com casa cheia, de virada, com direito a estupefação e choro. Vieram em mente outros episódios de quedas históricas, diante de Guarani, Internacional de Limeira, XV de Jaú, ASA, Ceará, Vitória, Ipatinga, Santo André… Vi um Palmeiras impotente, pequeno, perdido, com jogadores que não aguentam o peso da camisa. Um Palmeiras punido por sua arrogância, um Palmeiras que “não sabia” se domingo haveria jogo com o Flu. Um Palmeiras prostrado, entregue.

Que Palmeiras verei, daqui a alguns anos, já com o olhar cansado da velhice? Ou que Palmeiras haverá? Décadas de equívocos, de ideias encarquilhadas, brigas, ciúmes, conchavos, personalismo, traições e vendettas embicaram o Palestra para o fosso dos times comuns, banais, corriqueiros, pálidos coadjuvantes.

Talvez ocorra nova ressurreição. Tomara, para alegria de sua torcida. Mas estou cético, por aquilo que sai dos calabouços da Turiaçu. Por enquanto, me resta dizer: descanse em paz, Palmeiras, à espera de um Messias que o faça reviver. E danação eterna aos mascates que o apequenaram, aos que desonraram a memória dos nonnos e às hienas prontas para dar o bote e roer a carcaça de um clube que um dia mereceu ser seleção.

*(Texto da minha coluna no ‘Estadão’ de hoje, 26/11/2010)

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