O Palmeiras e o espírito das múmias de Pompeia

Antero Greco

13 de setembro de 2012 | 19h46

Felipão saiu, os males do Palmeiras acabaram? Não acredito. O desfecho de uma parceria de mais de dois anos foi triste e manjado. A diretoria recorreu hoje ao tradicional método de dispensar o treinador como forma de resolver os problemas do time. Solução clássica, sem imaginação, baseada mais na suposição do que em certezas.

Ok, o retrospecto da equipe no Brasileiro é desolador: 14 derrotas em 24 rodadas pesam, tanto para o treinador iniciante, bagrinho ainda na profissão, como para um nome de peso e famoso, como Scolari. Fica difícil justificar desempenho tão frágil. Não há contusões, suspensões, erros de arbitragem ou azar que sustentem essa maré baixa.

Felipão tem parte de culpa nessa fase entortada do Palestra, assim como os jogadores. O “professor” errou em decisões táticas, em substituições, em indicações para contratações e até na dispensa de alguns jogadores (Pierre não servia no clube e é titular no Atlético-MG). Não vamos vê-lo, portanto, como infalível. É do cargo receber elogios e críticas.

Também não vejo os boleiros como coitadinhos. Tem medalhão que age como medalhinha, tem jogador sem história que se imagina o rei da cocada preta. E mal sabe que, se perder a boquinha no Palmeiras, o destino vai reservar-lhe perambulações por equipes menores. Até sumir do mapa. O tempo se encarregará dos presunçosos.

Apesar de tudo, não optaria pela saída de Felipão. Ele tinha cacife, ainda, para comandar uma reação. Ou, na pior das hipóteses, para ajustar um time para viver a esquizofrênica situação de jogar Série B e Libertadores em 2013. Seria um desafio para ele, e uma prova de coragem praticamente inédita para a diretoria do Palmeiras. Seria apostar, de fato, num projeto.  Parece sem lógica o que disse, mas não é.

A demissão de Felipão não vai adiantar nada, se não mudar a mentalidade de quem comanda o Palmeiras. A postura, a visão dos cartolas verdes estacionou no meio dos anos 1970, quando terminou a segunda versão da Academia. De lá para cá, com exceção dos anos Parmalat (e ainda assim com resistência interna), o que se viu foram métodos arcaicos, briga pelo poder, retrocesso.

Nunca a localização de um clube foi tão emblemática. O Palmeiras tem sede no bairro da Pompeia e atrai o espírito das múmias das ruínas da Pompeia original, a cidade destruída pelo vulcão Vesúvio no começo de nossa era. Essas múmias procuram cinzas e almas gêmeas. Acho que encontraram.

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