O peso do nome*

Antero Greco

17 de março de 2013 | 12h40

Ney Franco e Gilson Kleina andam no fio de navalha afiada, pronta para feri-los ao menor passo em falso. Treinam dois clubes famosos, e durante a semana sentiram o peso que carregam. São Paulo e sobretudo Palmeiras vivem em ebulição e, se fazem a fama de técnicos, também sabem engolir sonhos e reputações. Ainda mais se não forem estrelas de primeira grandeza – caso de ambos.

Um e outro têm sido apontados como responsáveis por oscilações das equipes. Sobre Ney recai o desastroso desempenho tricolor na fase de grupos da Libertadores. Com 4 pontos em igual número de jogos, é imensa a ameaça de ficar fora das oitavas. Para seguir adiante, em princípio precisa ganhar as duas partidas que lhe restam e torcer para que Arsenal e The Strongest se compliquem. Situação para ficar com pés atrás.

Kleina lida com a desconfiança e com a impaciência da torcida palestrina, ferida com sucessão de humilhações. A vida no Estadual não é das piores – está no bloco principal -, mas são poucas as vitórias convincentes. No meio da semana, por exemplo, o time teve dificuldade para passar pelo Paulista com dois a menos. Na Libertadores, o futuro é um ponto de interrogação. Na teoria, depende apenas de si; na prática, leva escorregadas que fazem temer a eliminação precoce.

Há falhas no trabalho desses aspirantes ao primeiro quadro dos professores do nosso futebol. Elas são visíveis no desempenho das equipes sob seu comando. Lacunas, no entanto, não muito diferentes das que se detectam na metodologia de monstros sagrados, pagos em geral a peso de ouro e para os quais nunca faltam convites tentadores. E eis o ponto: Ney e Kleina não têm nomes associados a sucesso incondicional. Ainda. Por isso, as costas não são largas e se mostram alvos mais fáceis de atingir do que seus colegas com maior rodagem. Também têm temperamento mais cordato do que raposas velhas. Há quem os considere educados demais, como se tal característica representasse desvantagem.

Mas seriam tão inferiores assim? Ney Franco, 46 anos, já tem currículo interessante, acima da média. Leva na bagagem 1 Copa do Brasil, 3 Estaduais (em MG, RJ e PR), 2 Taças Guanabara, 1 Sul-Americana, além de um Sul-Americano e um Mundial com a seleção Sub-20. Kleina, 45 anos, tem só um estadual (com o Coruripe), e o Palmeiras despontou como o trampolim para dar salto de qualidade numa carreira que começou em 1999.

Ney recebe críticas pela inconstância do São Paulo. O elenco que dirige é bom, há diversos jogadores de qualidade – só que alguns até o momento não renderam o que se espera deles (Lúcio e Ganso, por exemplo). Por ser inquieto, o treinador testa diferentes formações o que, para olhos mais conservadores, significa “inventar muito”.

Kleina maneja grupo limitado, mais do que o do 2012, e de quebra viu a direção abrir mão de Barcos, a estrela solitária. O Palmeiras atravessa período de recomposição e, pelo jeito, na base do malfadado bom e barato, ótimo para triturar profissionais. Natural imaginar que o técnico se retraia, fique a tatear o terreno e não ouse. Dessa forma, embarca em círculo vicioso, do qual pode ser a única vítima.

O futuro de Ney e Kleina passa pela coragem e paciência das respectivas cartolagens. Não sei se São Paulo e Palmeiras terão peito como o Corinthians, que manteve Tite em 2011 após o fiasco diante do Tolima. Na época, o currículo do campeão mundial atual não era dos mais ricos. Hoje, treinador e time estão no topo.

Fosse essa dupla, desde já eu faria figa e poria as barbas de molho.

*(Minha crônica no Estado de hoje, domingo, dia 17/3/2013.)

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