O presidente nervoso

Antero Greco

28 de janeiro de 2015 | 19h01

Vi duas entrevistas de Mário Gobbi, na terça-feira, e em ambas desandou a falar um monte para os jornalistas. O presidente do Corinthians, em final de mandato, irritou-se sobretudo quando lhe perguntaram a respeito do episódio em que se indignou com a prisão de 12 torcedores, após o assassinato de um jovenzinho, na Bolívia, durante a Libertadores de 2013.

Gobbi ficou nervoso com o questionamento – e não foi a primeira vez. Sempre que o tema vem à tona, se inflama. As respostas, desta vez, foram carregadas de ironia e com mais interrogações e generalizações.

“Quero saber quem matou Kevin (o menino boliviano atingido por um sinalizador). Me digam vocês, me digam!” Para acrescentar, na sequência: “Vocês sabem quem libera as torcidas organizadas? Sabem? Não sabem. É o Ministério Público. E vocês pegam leve com ele.”

O dirigente emendou, ainda, comentários a respeito da qualidade do jornalismo esportivo. Mas que poderiam ser resumidos numa palavra: “medíocre”.

Enfim, bravo pra chuchu.

Não o conheço pessoalmente, e me parece boa gente. (Se bem que já me enganei muito na vida ao avaliar as pessoas.) Mas notei nos dois episódios um desconforto enorme, fora a tática comum em personalidades públicas de aumentar o tom, falar grosso, para intimidar os interlocutores e desviar do assunto central. Às vezes, dá certo; às vezes, não.

Gobbi tem razão ao observar que se questiona pouco a Justiça no caso de violência de torcidas. Não só a Justiça, como as autoridades em geral. Há muito se cobram ações firmes contra grupos de fanáticos. O Estado tem parcela de culpa, com omissão ou com atitudes débeis.

Os cartolas também têm a parte deles. A força dessas organizações paramilitares começou, lá atrás, com o auxílio, a simpatia e o interesse dos próprios dirigentes. Com o tempo, se deram conta que haviam alimentado um monstro, que ganhou vida independente e hoje temem o poder dessa entidade.

Não sabem como controlá-lo e sucumbem, ao abrir-lhes espaço nos treinos, nos estádios, na facilitação com ingressos, dentre outras coisas. Até em cargos de direção.

Sucumbem por medo, pressão, ameaças, interesses em alguns casos (são ótimos aliados para objetivos políticos). Um ou outro ensaia livrar-se da sombra – como o próprio Gobbi fez. Mas são impotentes. Por isso, se sentem incomodados com a cobrança, por exemplo, da imprensa. Esta, porém, é mais fácil de ser encarada, porque as armas que possui não passam de palavras, canetas, microfones. Entendo o medo deles.

Dirigente de futebol aparece, tem destaque, cai na boca do povo. E tem um preço a pagar no que se refere ao relacionamento com certas torcidas.

Concordo, também, com Gobbi quando fala em mediocridade da imprensa. Concordo em parte, bem entendido. Há mediocridade mesmo, quando ela dá espaço para ídolos com pés de barros e que, em circunstâncias normais, não sairiam do anonimato, que é onde deveriam sempre estar.

 

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