O que o Brasil espera? Uma seleção de cabras-machos*

Antero Greco

30 de maio de 2014 | 09h51

Hernanes tem voz grossa, de locutor das antigas, sotaque nordestino carregado, raciocínio limpo e conversa bem conectada. Em resumo, não faz a figura estereotipada do boleiro tosco, da estirpe dos que apelam para o “tudo fazeremos pelos três pontos”. Logo de primeira, na entrevista coletiva de ontem – e, pelo jeito, será assim o contato com a rapaziada até a dissolução do grupo –, mandou recado claro ao ressaltar que, por ser pernambucano e, portanto, “cabra-macho, arretado”, não pensa em baixar a guarda na disputa da Copa. Seja como reserva, condição atual, ou como titular eventual, toda vez que Felipão o colocar em campo.

Na intuição, sem elaborar o discurso, resumiu o comportamento que espera de seus companheiros assim que a bola rolar, contra a Croácia, até o confronto decisivo, em 13 de julho. Postura valente, sem complicações, sem medos insuperáveis. O rapaz tem um forte sentido coletivo, e o escancarou ao lembrar que a maior parte dos convocados para a missão tem origem semelhante e aprendeu a “driblar dificuldades da vida.” Imagem simples e forte. Bacana.

Boto na conta da idade, ainda mais agora que minha folhinha vai indicar década cheia, mas a verdade é uma só: me comovo com esse tipo de atitude.
Pode soar como bobeira, pieguice, caduquice até. Não dou a mínima. Só sei que me arrepiam atitudes singelas. E Hernanes falou com tal naturalidade que não deixou sombra de que foi genuíno, autêntico. Qualidade rara hoje em dia, não só no mundo do futebol, mas no nosso cotidiano mesmo. Repare que nos acostumamos a elaborar respostas e a ensaiar frases para bem impressionar. Hernanes soltou o verbo, na lata, na bucha.

Por que não acreditar na veracidade do sentimento do moço e, por extensão, de seus companheiros de aventura?
Por enquanto, não há motivo para contestar nem torcer o nariz, tampouco desconfiar. Há distensão, a despeito da redoma em que se tratou de colocar os atletas. O ambiente é calmo na Granja, na aparência tão rotineiro, a ponto de dar medo. Cisma, superstição, trauma de outras situações semelhantes, neura de minha parte? Pode ser nada disso ou presságio. Deixo para amadurecer opinião com o tempo, com as observações das próximas semanas.

Por ora, dá para fiar-se de que o espírito da seleção tende ao solidário, ao coletivo. Por índole dos que a compõem, por safra, por inteligência também. Por sentido de sobrevivência. Não há oferta de super estrelas – vira, mexe e chacoalha, desembocamos sempre em Neymar como o solista da companhia. Os demais são jogadores bons, muito bons ou ótimos. Não tem perna de pau por aqui.

Mas como não dá para empurrar tudo nas costas de um só, o sensato é apostar na força do conjunto. O velho papo do um por todos, todos por um.
Daí salto pro começo da crônica de hoje. Hernanes deu o mote do que o Brasil aguarda desse time: que seja de cabras-machos arretados.

*(Minha crônica no Estado de hoje, sexta-feira, 30/5/2014.) 

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