O São Paulo não é difereeeeen-tchê

Antero Greco

21 de abril de 2011 | 15h08

O poder seduz. Sentir-se adulado, servido, atendido, obedecido infla o ego. Ser chamado de ‘doutor’, ‘presidente’ funciona, para algumas pessoas, como potente afrodisíaco. Não é por acaso que tem gente que passa a vida atrás de cargos que lhes confiram autoridade. Mandar provoca sensação de superioridade, de imortalidade. O poder também ilude, distancia da realidade, principalmente quando é exercido por muito tempo. Não é por acaso que ditadores ficam chocados quando se dão conta de que o povo não mais os deseja. Caem das nuvens.

O futebol é uma das atividades em que a busca pelo poder se torna obsessão. Cada vez mais, na mesma proporção em que ganha relevância social, financeira, cultural até. São comuns os casos de longevidade de mandatários. Muitos dirigentes entram na política esportiva com bons propósitos, carregam a bandeira da modernidade, prometem ser breves e profundos nas mudanças, mas… apenas picados pela mosca branca da soberania fazem de tudo para perpetuar-se no cargo. Comem o filé e não largam nem o osso.

Com o terceiro mandato consecutivo no São Paulo, Juvenal Juvêncio entra para o clube dos que se consideram imprescindíveis na agremiação que representa. A ponto de não abrir espaço para sucessão e ignorar oposição. Sintetiza a figura do pai todo-poderoso, o senhor de corações e mentes da coletividade que administra. Depois dele, virão as trevas, o naufrágio. Ou o dilúvio, como disse Luís XV. Externou esse sentimento ao afirmar, na quarta-feira, que o São Paulo precisa dele. “Todos sabem disso”, ensinou.

O cartola das frases arrastadas, mordazes, mostrou que não é difereeeeen-tccchê como gosta de enfatizar. É igual a tantos que o precederam ou que o rodeiam. A vitória dele deu um bico na modernidade que o São Paulo apregoa com ar de nobreza, blasé, para distinguir-se da raia-miúda dos demais clubes. Ok, foi obtida nas urnas, mas após mudança de estatuto. Em que difere de Palmeiras, Santos, Vasco, Corinthians, Atlético Mineiro, Cruzeiro e inúmeros outros que viveram (ou vivem) sob a influência de dinastias?

O São Paulo até recentemente tinha o verniz de arejamento ao optar pelo rodízio de presidentes, ao contrário de vários ‘coirmãos’. Embora fosse o mesmo grupo, havia regularmente mudança de nome do poderoso de plantão, o que dava a sensação de renovação.

Parecia até carregar bandeira da contestação e remar contra a maré, como nessa história da briga pelos direitos de transmissão de tevê. O grande aliado do Clube dos 13 também muda a direção do leme e prepara a debandada, como os simples e fracos mortais…

 Agora, rasgou-se a fantasia. O São Paulo entra na vala comum, como todos. O futebol brasileiro não mudará tão cedo.

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