O show de Amarildo na festa da Fifa

Antero Greco

14 de janeiro de 2014 | 02h01

A Fernanda Lima estava linda como sempre; o choro de Cristiano Ronaldo, pelo justo prêmio, foi tocante; o troféu especial para Pelé, uma reparação histórica; o terno vermelho fez Lionel Messi parecer porteiro de hotel; Sérgio Ramos na seleção do ano mostra como tem gente mundo a fora que vota no nome e não no desempenho; Neymar se acostuma a festas de gala, e num futuro não muito distante ele estará no alto do pódio.

Tudo muito bacana, bem organizado e com um ou outro toque brega. Mas, meus amigos, pra mim quem brilhou na festa de mais uma edição da Bola de Ouro (parceria da “France Football” com a Fifa) foi Amarildo Tavares da Silveira. Na hora em que pegou o microfone para falar sobre a expectativa para o Mundial deste ano no Brasil, o antigo atacante de Botafogo, Milan, Fiorentina se encheu de brio e soltou o verbo diante de plateia seleta.

O “Possesso”, como o definiu Nelson Rodrigues, desancou o comportamento da torcida brasileira, por causa de episódios violentos, alertou que quem decide são os jogadores (e com isso derrubou esse papo de que o torcedor interfere, é o décimo segundo jogador e etc.), apostou na seleção para ganhar o título e assim espantar a “mancha negra” que encobre o Maracanã desde a final da Copa de 1950, aquela jamais esquecida e vencida pelo Uruguai.

Amarildo foi brilhante, para impaciência de Ruud Gullit, um dos chefes de cerimônia, que chegou a bater nas papeletas que tinha em mãos para ver se encurtava o discurso. Cafu fez cara de surpresa e Pelé assistiu impassível ao show do antigo companheiro de seleção. Na plateia, alguns sorriam, a imaginar quem seria aquele velhinho que engatou uma quinta.

Pois aquele senhor, de 74 anos e muitas histórias, é uma lenda do futebol brasileiro. Saiu daqui garoto, numa época em que italianos e espanhóis fisgavam os talentos que conseguissem – ou seja, como fazem ainda hoje –, e fez estripulias na Itália. Antes, teve a tarefa tremenda de substituir Pelé em quatros jogos do Mundial do Chile – e arrasou. Foi, ao lado de Garrincha, responsável pela segunda conquista da Jules Rimet.

Amarildo andou pelo mundo, voltou pouco tempo atrás para casa, enfrentou um câncer de garganta. Daí, o tom às vezes vacilante da voz, que alguns desinformados maldosamente interpretaram como sinais de que havia tomado uns gorós. Amarildo foi, no palco em Zurique, o Possesso dos tempos de jogador. Quebrou protocolo, fugiu do discurso padrão e pasteurizado, ignorou os segundos que lhe eram destinados e mostrou que, na melhor tradição dos boleiros antigos, fala o que lhe dá na telha não o que recomendam assessores.

Amarildo mostrou-se para as novas gerações, para os que não sabem quantos astros só o Brasil teve.

Vida longa, Amarildo!

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